Instituto Pensar - Cidade, Turismo e Centro Histórico

Cidade, Turismo e Centro Histórico

Volta e meia, sociólogos, antropólogos, mestres e mestrandos daqui e de fora lançam suas ideias sobre o Centro Histórico de Salvador. Na maioria das vezes boas contribuições Música, poesia, literatura, artes plásticas e visuais, e também interpretação antropológica fazem parte de nossa história. Mas, às vezes, abusam da lisa brancura do papel e escrevem o que lhes vem à telha, sem se dar ao menor esforço da comprovação de seus assertivos.

O último douto diagnóstico sobre o Pelourinho – aliás, Centro Histórico – foi proposto pelo “mestrando e professor da Faculdade de Direito de Brasília”, Ronaldo Barreto de Andrade, em A Tarde de dezembro de 2010. Depois de comparar o Centro Histórico de Salvador e Havana, sem explicar que o primeiro foi esvaziado pela opção capitalista do Centro Administrativo, e o segundo pela estagnação socialista proveniente do boicote norte americano a Cuba, o professor nos ensina que Salvador mirou num objetivo, transformando “o seu Centro Histórico num parque temático, numa Disney World onde se vendem acarajés ao invés de hambúrgueres”. A bobagem é tão grande e contraditória o que anula a semi-frase seguinte denunciando “a terrível limpeza étnica e social” que ele não se lembrou de dizer, mas na certa se refere à recuperação do Pelourinho realizada no Governo de ACM.
Embora não seja original, um urbanista chileno já havia requisitado essa sensacional descoberta, o professor brasiliense revelou preconceito e desconhecimento. Preconceito contra os parques temáticos e de entretenimento que geram bilhões de dólares e empregos para os norte-americanos, para os franceses e para os sul-africanos.

Preconceito contra o próprio turismo também revelado em outro trecho do seu artigo. E ignora a simples diferença entre pontos temáticos de entretenimento e sítios turísticos e culturais. Seria o coliseu uma Disneylândia em que se come macarrão? Estaria o fantástico patrimônio cultural milenar da China ameaçado pela decisão (socialista) de implantar num segundo parque temático de Walt Disney, o Shangai Disney Resort com um investimento de 3,7 bilhões de dólares?
E façamos justiça: o turismo na Bahia nunca desconheceu o valor _ em governos que se sucederam de linhas políticas diferentes – da cultura e do patrimônio histórico que herdamos.

Aliás, a grandeza do turismo reside exatamente na sua capacidade de contribuir para preservar o patrimônio histórico que herdamos na sua máxima inteireza e autenticidade e, no outro caso, possibilitar a união de estruturas de entretenimento capazes de estimular a imaginação e a fantasia atendendo a variados públicos de diversas faixas etárias.
O turismo como negócio, é um avanço civilizatório dos últimos séculos, anteriores ao atual século XXI. Apenas as novas expedições científicas dos séculos 16 e 17, os homens se locomoviam, no passado, com objetivos de dominação econômica, religiosa e militar. O “prazer em conhecer” no plano social iniciou-se como atividade econômica, como negócio, em meados do século 19. Na primeira excursão organizada que Thomas Cook. E não creio que exista atividade econômica tão ligada à preservação da natureza e do patrimônio histórico como o turismo.
Quanto ao Centro Histórico de Salvador, com recursos do turismo, do Prodetur, recuperaram-se pontos históricos como a Igreja do Boqueirão, a Igreja e o Cemitério do Pilar, os Palácios da Aclamação e Rio Branco, a igreja do Rosário dos Pretos.

Se os professores e outros intelectuais preconceituosos quiseram realmente debater o Centro Histórico, vamos às suas causas históricas recentes, decisões urbanísticas profundamente danosas como a implantação do Centro Administrativo da Bahia e de shoppings centers a menos de 20 quilômetros do Centro da Cidade.

Num só movimento envolvendo especulação imobiliária, interesse em grandes construções e interesses comerciais imediatistas, esvaziou-se o Centro de Salvador física e economicamente. Deslocou-se para a Paralela o centro de poder mais forte, o Governo Estadual, levando para lá todos os seus funcionários públicos. Lojas, restaurantes, bares, oficinas, escritórios, tudo que dava e recebia vida de milhares e milhares de funcionários públicos e dos que deles dependiam para tomadas de decisão. Para esse contingente significativo de pessoas com poder aquisitivo numa cidade pobre como Salvador, implantaram-se os Shoppings entre a Paralela e os bairros residenciais.

O tecido urbano do centro de Salvador foi socialmente necrosado.
E já que precisamos de exemplos estratégicos, cidades com Roma, Madrid, Londres só permitem shoppings bem distanciados dos seus centros históricos e comerciais. Na pior das hipóteses foram permitidas apenas grandes lojas de departamentos como o Corte Inglês, o Harold’s ou as galerias que se somaram aos centros comerciais.
Finalmente enquanto alguns intelectuais dizem que o Pelourinho está dimensionado só para turista, os artistas, comerciantes e moradores de lá sentem falta de mais turistas, com disposição e euros para comprar. Mais turistas e também mais baianos, é claro.

Vale lembrar uma frase da ex-prefeita e Senadora Lídice da Mata, sempre citada por Caio Carvalho, presidente da São Paulo Turismo: “Uma cidade só é boa para os turistas se for boa para seus habitantes”. Tão simples assim.

Domingos Leonelli



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