Instituto Pensar - SALVADOR E O TURISMO I e II

SALVADOR E O TURISMO I e II

SALVADOR E O TURISMO I

A capital do Estado continua sendo a principal porta de entrada de turistas para a Bahia. Os ícones principais utilizados em nossa publicidade no Brasil e no mundo são o farol da Barra, o Forte São Marcelo a partir do qual se vislumbra a Baía de Todos os Santos, o Pelourinho e o Elevador Lacerda, nossa "Torre Eiffel". Outras zonas turísticas beneficiam-se desses símbolos e recebem turistas desembarcados em Salvador, especialmente o Litoral Norte e as cidades da Baía de Todos os Santos e da Baía de Camamu.

√Č natural, portanto que se associe o turismo da Bahia a Salvador, a velha "Cidade da Bahia". E, por isso, al√©m das cr√≠ticas que nos cabem enquanto gest√£o estadual do turismo, recebemos tamb√©m uma carga pesada da cota de Salvador. E o pior: sobre certos pontos a respeito dos quais n√£o temos nenhuma gest√£o ou poder de interfer√™ncia: ambulantes, mendigos, comercio informal, tr√Ęnsito, barracas, lixo, ilumina√ß√£o p√ļblica e outras tantas.

Isso elimina nossa responsabilidade sobre esses problemas? Claro que n√£o. Secretaria de Estado, empresa de turismo e como cidad√£os que somos desta Soter√≥polis, estamos no mesmo barco. E os recursos do turismo nas administra√ß√Ķes anteriores a 2007 e, muito especialmente, em nossa administra√ß√£o tem vindo para Salvador em forma de obras f√≠sicas (peda√ßo da Orla entre Amaralina e Pituba, recupera√ß√£o de pr√©dios e monumentos hist√≥ricos, apoio a eventos culturais, apoio a eventos de entretenimento, esportivos, qualifica√ß√£o de m√£o de obra e capacita√ß√£o empresarial, divulga√ß√£o da Bahia e de Salvador no Brasil e no mundo, atra√ß√£o de investimentos, inclusive no Centro Hist√≥rico de Salvador, e apoio a investidores em hot√©is, futuras marinas, empreendimentos tur√≠sticos).

Em muitas outras √°reas o Governo do Estado investe pesado em Salvador. Mas somente atrav√©s da Secretaria de Turismo e da Bahiatursa formaram-se 20 (milh√Ķes) do turismo para Salvador nos √ļltimos 5 anos. E existem mais de 300 milh√Ķes para serem aplicados atrav√©s do Prodetur  Nacional e da SETUR/MTur para os pr√≥ximos 3 anos, inclusive a Feira de S√£o Joaquim, Bahia de Todos os Santos.

Do Governo Federal em obra diretamente ligada ao turismo vamos ter a nova Esta√ß√£o de Passageiros que a CODEBA em parceria com o Governo do Estado e a Prefeitura, v√£o implementar nos Armaz√©ns 1 e 2 do Porto. Esses investimentos do Governo Estadual e do Governo Federal, apesar de important√≠ssimo, s√£o suficientes para o turismo em Salvador? Definitivamente n√£o. Se a Prefeitura de Salvador n√£o assumir como um vetor estrat√©gico da economia da cidade, Salvador ser√° um dos problemas e n√£o uma das solu√ß√Ķes do turismo baiano.

Constituir-se em vetor estratégico significa receber recursos financeiros, estruturas administrativas e articulação com áreas vitais para o turismo como a mobilidade urbana, o controle do comércio informal, a requalificação dos sítios históricos. Uma frase da ex- prefeita Lídice da Mata, foi tomada por Caio Carvalho, ex-presidente da Embratur e atual Secretário de Turismo de São Paulo, como um verdadeiro axioma: "A cidade só é boa para os turistas se for boa para os seus habitantes".

Reconhecer o turismo como um vetor estrat√©gico n√£o pode ser uma declara√ß√£o de jornal. S√≥ vale de verdade se isso significar incluir o turismo nas prioridades dos or√ßamentos p√ļblicos.
E assim como prioridade algumas condicionantes no terreno da mobilidade urbana, da manuten√ß√£o dos equipamentos p√ļblicos, das restri√ß√Ķes e est√≠mulos a atividades empresariais na cidade.

Algumas dessas prioridades também no próximo artigo, Salvador e o Turismo II.


SALVADOR E O TURISMO II.

E desde j√° afaste-se a vis√£o preconceituosa sobre certas melhorias e equipamentos urbanos de que "isso √© s√≥ para turista". Nenhum turista quer uma cidade, nem locais s√≥ para turistas. Eles v√£o viver experi√™ncias verdadeiras. Cidades n√£o s√£o parques de divers√£o, embora esses sejam tamb√©m importantes. Assim um museu que encanta um turista, tamb√©m educa v√°rias crian√ßas. A capoeira, o maculel√™, a roda de samba que os turistas pagam para ver, s√£o as mesmas manifesta√ß√Ķes culturais preservadas e que se multiplicam com os recursos do turismo.

Mas isso se refere a turismo em geral. Vamos às prioridades estratégicas que Salvador precisaria para fazer o turismo render mais emprego e bem estar para o nosso povo. O primeiro e mais estrutural fator é o ordenamento espacial urbano. Certas áreas das cidades rendem mais socialmente (empregos, renda, riqueza, cultura) se forem destinadas a empreendimentos turísticos e serviços importantes para o turismo e para os cidadãos. As orlas de Salvador (interna e externa), por exemplo, seriam muito melhor ocupadas por hotéis, marinas, casas de espetáculos, restaurantes, centros comerciais destinados a venda de artesanato, moda, centros culturais e de entretenimento, do que para edifícios residenciais.
 
O tipo de ocupação não residencial tem impacto muitas vezes menor que o os gigantescos edifícios que terão milhares de automóveis individuais saindo e voltando ao mesmo tempo. Um hotel de 150 apartamentos gera 200 empregos, compra diretamente na rede de comércio, contrata serviços, ativa taxis, vans, contribui para a divulgação da Bahia. Mas não tem 300 automóveis entrando e saindo.

Um edif√≠cio de 150 apartamentos emprega no m√°ximo 12 pessoas. E as pessoas compram apenas o que j√° compravam antes de se mudarem. Se a Prefeitura de Salvador tivesse seguido as recomenda√ß√Ķes de sua primeira Estrat√©gia Econ√īmica aprovada em 2006, n√£o teria autorizado a implanta√ß√£o de dezenas de grandes edif√≠cios nas margens da Paralela, que depois de ocupada vai penalizar a cidade.

E a pouco ing√™nua indaga√ß√£o sobre onde poderia se construir mais resid√™ncias, os poderes respondem com as pr√≥prias solu√ß√Ķes de incorporadores imobili√°rios mais audaciosos como os que est√£o fazendo o complexo "Boa Vista", na sa√≠da norte de Salvador. Nesse empreendimento eles criaram seu pr√≥prio sistema vi√°rio e n√£o se apropriaram das avenidas constru√≠das com dinheiro p√ļblico¬Ö

Mas a cada restri√ß√£o ao chamado capital imobili√°rio, pode-se estabelecer est√≠mulos fiscais e tribut√°rios para atividades que interessem √† Revitaliza√ß√£o do Centro hist√≥rico, como por exemplo, a implanta√ß√£o de estacionamentos, redu√ß√£o de impostos, rapidez no licenciamento, liberdade para explora√ß√£o e estabelecimento flex√≠vel de tarifas, deveriam ser dados para quem se dispuser a implantar estacionamentos subterr√Ęneos ou verticais em √°reas pr√© definida no Centro de Salvador.

Em outra dimens√£o √°reas p√ļblicas municipais, estaduais e federais, deveriam ser ofertadas √† explora√ß√£o ou venda para atividades produtivas no Centro e nos bairros centrais de Salvador. Pequenas ind√ļstrias n√£o poluentes, confec√ß√Ķes, ourivesaria, produ√ß√£o de equipamentos tecnol√≥gicos, s√£o ind√ļstrias sem chamin√© que servem ao turismo e √† economia da Cidade.

O que se vê é o contrário: o antigo Palace Hotel foi comprado vivo, funcionando, por especulador imobiliário português e está fechado há quase 10 anos. Um verdadeiro urbanicídio na Rua Chile, coração do Centro Histórico. Destruiu-se emprego, história, tradição, para nada.

E desde 2006 o Prefeito Jo√£o Henrique tem na sua gaveta um decreto de desapropria√ß√£o do pr√©dio. Se a Prefeitura, a C√Ęmara de Vereadores, o empresariado, o Minist√©rio P√ļblico, o IAB, as organiza√ß√Ķes da sociedade civil, compreenderem que o turismo √© um "ganha-p√£o" da cidade, algumas medidas teriam que ser tomadas, ainda que alguns votinhos se perdessem aqui, para se ganhar muito mais um pouco adiante deste  alguns.

1. Incluir no zoneamento definido pelo PDDU entre as Zonas Especiais, o conceito e a defini√ß√£o de Zona Tur√≠stica, atribuindo-lhes fun√ß√Ķes que favore√ßam o turismo, a exemplo do j√° citado est√≠mulo a estacionamentos. Ali√°s, embora o PDDU embora contenha in√ļmeros dispositivos que, se aplicados, seriam muito importante para o turismo, mas n√£o possui nem meio cap√≠tulo sobre turismo.

2. Complementar, ou mesmo se antecipar, √†s interven√ß√Ķes estruturais das nossas avenidas, metr√ī, trem de superf√≠cie e outras, com a implanta√ß√£o de rod√≠zio para carros circularem em Salvador (chapas pares e √≠mpares), ped√°gios internos, cobran√ßa de estacionamento, forte fiscaliza√ß√£o nos equipamentos de receptivo de Salvador, como Aeroporto, Rodovi√°ria e Terminal Mar√≠timo, visando assiduamente inibir o uso do carro particular.

3. Decis√£o s√≥cio-econ√īmica-cultural sobre ambulantes e com√©rcio informal no Centro de Salvador:

a) estabelecer √°reas para comercio informal;

b) restringir fortemente o antiecon√īmico com√©rcio de importados contrabandeados ou fornecidos aos ambulantes para importados que al√©m de ser legais, criam redes de informais para venda e produtos industriais importados ou fabricados na Bahia;

c) no miolo do Centro Hist√≥rico (Pelourinho, Santo Ant√īnio, Rua Chile Pra√ßa Cairu) transformar os ambulantes m√≥veis em vendedores com ponto fixo, tipo pequenas barracas (cadastrar, fixar e proibir novas); artesanais fabricados pelos pr√≥prios ou produzidos em Salvador e na Bahia.

d) facilitar o apoio e até estimular que os ex-ambulantes comercializem produtos.

4. A exemplo do que est√° sendo projetado para a Esta√ß√£o de Passageiros do Proto de Salvador, do que est√° sendo feito na reforma da Feira de S√£o Joaquim, da Casa da Baiana e da Pra√ßa Irm√£ Dulce, onde Governo do Estado, Prefeitura de Salvador e Governo Federal est√£o atendendo conjuntamente. Na maioria dos casos com maior peso estadual, definiu-se 3 ou 4 grandes interven√ß√Ķes urban√≠sticas em Salvador de alto interesse para cidad√£os e turistas: Orla, Ribeira e Com√©rcio. Em todos esses casos e, tamb√©m em outros casos, um dos principais capitais decis√≥rios da Prefeitura s√£o os poderes de licenciamento e fiscaliza√ß√£o com puni√ß√Ķes regionais √† especula√ß√£o, √† extin√ß√£o irrespons√°vel de servi√ßos. Uma coordena√ß√£o interdisciplinar de fiscaliza√ß√£o e controle deveria ser dirigida em seu gabinete.

5. A economia da cultura e do entretenimento com muitas interfaces com o setor dos servi√ßos superiores, √© uma das mais √≥bvias voca√ß√Ķes da cidade. Os espa√ßos urbanos deveriam servir a essa voca√ß√£o. Uma "cidade da m√ļsica" com espa√ßos para grandes espet√°culos internacionais, espa√ßos para nossas express√Ķes culturais (ax√©, forr√≥, afro, samba, rock, jazz), oficinas, cursos, al√©m de hot√©is e restaurantes, receptivos tur√≠sticos, precisa de uma √°rea de 200 a 300 mil m¬≤ para viabilizar um estacionamento de 8.000 carros. Isso aliviaria √°reas hoje improdutivamente aproveitas e contribuiria para eliminar a "baixa-esta√ß√£o" tur√≠stica.

6. Insistindo na condi√ß√£o de "ganha-p√£o" da cidade, seria necess√°rio   uma prioridade de manuten√ß√£o de servi√ßos de limpeza, ilumina√ß√£o, policiamento, novas zonas tur√≠sticas da cidade. Considerando todas essas observa√ß√Ķes como uma esp√©cie de agenda do √≥bvio com algumas pequenas id√©ias novas, deixamos de fora muitos outros elementos estrat√©gicos como o turismo n√°utico, o turismo √©tnico-afro, a amplia√ß√£o do Espicha Ver√£o, enfim o que pode eventualmente ser uma atribui√ß√£o do Estado.



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