Instituto Pensar - Urbanidade: Espa√ßo Para A M√ļsica - Salvador

Urbanidade: Espa√ßo Para A M√ļsica - Salvador

A cidade √© uma das grandes inven√ß√Ķes da humanidade. Pode parecer estranho falar isso, justo porque elas parecem existir desde sempre, mas o que entendemos hoje por "cidade" nasceu a partir do s√©culo 19, mais precisamente, ap√≥s as revolu√ß√Ķes Industrial e Francesa e a consequente confirma√ß√£o do capitalismo como regime econ√īmico. Tudo cresceu, pessoas vieram, pessoas se foram, empresas e f√°bricas iniciaram atividades, o que demandou transportes e servi√ßos para viabilizar tudo. As popula√ß√Ķes aumentaram exponencialmente, onde antes havia desocupados agora havia uma inven√ß√£o tamb√©m t√≠pica destes tempos: a classe trabalhadora. Tudo isso e outros fatores peculiares fizeram da urbanidade o habitat natural dos contingentes humanos e esse contato novo, essa aproxima√ß√£o de gente diferente e a inser√ß√£o dela em uma realidade cotidiana unificada afetou a produ√ß√£o da cultura das sociedades. Esta pequena s√©rie de artigos visa mapear o que algumas cidades t√™m de interessante a oferecer em termos de produ√ß√£o musical. Falaremos de passado e presente, quando der, de futuro, mas garantimos que voc√™ vai gostar.

Salvador

Para quem n√£o deseja fazer muito esfor√ßo, √© conveniente pensar na Bahia como um lugar cheio de pessoas obrigatoriamente felizes. H√° sempre um bom motivo para que uma multid√£o v√° atr√°s do trio el√©trico, do bloco, da micareta ou qualquer outra aglomera√ß√£o de pessoas pulando e dan√ßando. Quem puxa esses contingentes s√£o artistas nativos, sempre bons e relevantes, cheios de talento e ginga, n√£o restando qualquer oportunidade para uma reflex√£o, um questionamento...Na Bahia, ou melhor, em Salvador (a cara do estado para o resto do pa√≠s) s√≥ h√° alegria e multid√Ķes pulando. N√£o √© preciso morar em Salvador (que √© conhecida entre os baianos como "Bahia"), para saber que essa impress√£o est√° equivocada. N√£o deve ser f√°cil morar num lugar em que as pessoas parecem t√£o felizes.

Salvador foi capital do pa√≠s at√© 1763, quando o Rio de Janeiro recebeu as honras. Durante o chamado Ciclo da Minera√ß√£o, era mais f√°cil fiscalizar os comboios com ouro de Minas Gerais e j√° embarc√°-los no porto carioca, com destino √† metr√≥pole portuguesa. Este evento n√£o conseguiu tirar a import√Ęncia da capital baiana e ela se constituiu como a grande cidade do Nordeste do Brasil ao longo dos tempos. Com uma popula√ß√£o fortemente miscigenada e abismos sociais hist√≥ricos, Salvador possui inclina√ß√£o natural para os ritmos afro-brasileiros. Mesmo assim e vendo o estado dar ao pa√≠s um g√™nio musical como Dorival Caymmi, nascido em Salvador em 1914, a cidade permaneceu agitada culturalmente. V√°rias agremia√ß√Ķes carnavalescas, blocos e cord√Ķes se formaram na primeira metade do s√©culo passado, confirmando a voca√ß√£o soteropolitana para o festejo.

Nos anos 1950, outro baiano (natural de Juazeiro) viria a ganhar notoriedade no cen√°rio cultural do Brasil: Jo√£o Gilberto. Poucos poderiam imaginar que, em meio √†s suas primeiras apari√ß√Ķes no circuito da m√ļsica do Rio de Janeiro, Salvador ganhava sua primeir√≠ssima gera√ß√£o de roqueiros. Dois sujeitos, um tal de Raul Seixas e Waldir Serr√£o (mais tarde, Big Ben), frequentavam as sess√Ķes de cinema na cidade, que foram o primeiro canal de divulga√ß√£o de uma nova m√ļsica feita para jovens em escala mundial. Bill Halley e Elvis Presley, brancos cantando m√ļsica negra americana, foram os primeiros her√≥is dessa nascente turma. Logo depois chegariam os pais da mat√©ria, Chuck Berry e Little Richard √† frente. Era demais para uma cidade como Salvador, num pa√≠s como o Brasil. Mesmo com a dist√Ęncia cultural que separava aquele novo mundo das ruas da cidade, Raul e Waldir foram afetados irremediavelmente e, al√©m deles, uma quantidade razo√°vel de moleques adolescentes. Serr√£o teria a primeira banda do Rock baiano, a Waldir Serr√£o e seus Cometas, fundada em 1957. Em pouco tempo surgiriam programas de r√°dio dedicados ao ritmo e uma segunda gera√ß√£o de bandas, mais para o in√≠cio dos anos 1960, reproduzindo os primeiros sucessos do Rock americano atrav√©s de vers√Ķes para o portugu√™s. Era a Jovem Guarda ou, mais informalmente, o I√™-I√™-I√™, que dava as caras tamb√©m por l√°. √Äquela altura, Raul Seixas e gente como Pepeu Gomes j√° militavam pelos subterr√Ęneos da cidade. Logo Raul viria √† frente da The Panthers, que teria o nome mudado para Raulzito E Os Panteras a partir de 1965. Outras forma√ß√Ķes tamb√©m surgiam pela cidade: Eles Quatro, Jormans, Brasa Brossa, Labaredas e The Brazilian Crickets. Esse pessoal e seus f√£s se encontravam no Cinema Roma, na Cidade Baixa. L√°, Waldir Serr√£o, j√° rebatizado Big Ben, produzia matin√™s dan√ßantes e roqueiras, tocando novidades do exterior e abrindo espa√ßo para a produ√ß√£o local.

A chegada da Tropic√°lia afetaria o Rock feito em Salvador. Em pouco tempo, a cidade seria recolocada no mapa cultural nacional, ainda que os arquitetos musicais da coisa estivessem distantes de l√°. Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil j√° moravam em S√£o Paulo ou Rio, fazendo um movimento caracter√≠stico dos artistas da cidade, buscando o Sudeste do pa√≠s para que fosse poss√≠vel "acontecer" em termos de sucesso. Tom Z√©, que tamb√©m iria para a capital paulista, tamb√©m era figura importante nesta gera√ß√£o de artistas contestadores, bem como o cineasta Glauber Rocha. Mais que tudo, a Tropic√°lia significava plugar o Brasil no mundo sem que fosse preciso abrir m√£o das refer√™ncias culturais pr√≥prias. Nesse contexto tamb√©m surge um outro importante pilar da m√ļsica soteropolitana, Dod√ī, que, em pouco tempo estaria √† frente do Trio El√©trico de Armandinho, Dod√ī e Osmar.

Ao lado da converg√™ncia de m√ļsicos locais, que formariam Novos Baianos, o Trio foi o respons√°vel pela fus√£o da guitarra el√©trica com a tem√°tica adolescente da cidade, que deu origem a um novo idioma musical. A inven√ß√£o de Dod√ī chamou-se de "guitarra baiana", respons√°vel por um timbre diferente e com tamanho menor que o instrumento original, a nova pe√ßa do arsenal s√īnico seria utilizada largamente em grava√ß√Ķes nos anos 1970. Do Novos Baianos j√° sabemos bastante: Moraes Moreira, Luiz Galv√£o, Paulinho Boca de Cantor e mais Baby Consuelo, fora arregimentada enquanto passava f√©rias na cidade. Pouco depois viriam Pepeu Gomes, Dadi, Jorginho Gomes (irm√£o de Pepeu) e Jos√© Roberto Macedo e o percussionista Baixinho. Estes √ļltimos, exceto Pepeu, tamb√©m teriam carreira √† parte, usando o nome A Cor Do Som. Com o lan√ßamento do primeiro √°lbum, √Č Ferro Na Boneca, em 1970, a banda logo caiu nas gra√ßas do p√ļblico. A partir da√≠, repetindo o movimento tradicional, a banda deixa a cidade e se muda para o Rio de Janeiro, onde encontra com Jo√£o Gilberto, convertido imediatamente em f√£.

Mesmo com a volta de Gilberto Gil e Caetano Veloso do ex√≠lio, o sucesso de Gal Costa e Maria Beth√Ęnia, quem leva adiante o Rock baiano e de Salvador adiante na d√©cada de 1970 √© Raul Seixas, praticamente um √≠dolo nacional e seguido por uma legi√£o de f√£s fi√©is. √Ālbuns como Krig-Ha Bandolo (1973) e Gita (1974) cravam v√°rias can√ß√Ķes nas paradas de sucesso, oriundas da parceria entre Raul e Paulo Coelho. No mesmo momento surge em Salvador algumas bandas importantes, como Mar Revolto e a emblem√°tica Cremes (cujo nome pegava emprestado do trio ingl√™s Cream), que pretendia fazer uma mistura de Jazz, Rock e ritmos nordestinos. Salvador caminhava para os anos 1980, d√©cada na qual sua produ√ß√£o musical tomaria rumos insuspeitos.

Seguindo o exemplo de quase toda cidade a partir do fim dos anos 1970, Salvador vivenciou o surgimento de uma cena Punk. N√£o sabiam estes jovens idealistas que teriam como oponente um poderos√≠ssimo monstro midi√°tico, que se formava nas reuni√Ķes da ind√ļstria musical. Logo vieram bandas como 14¬ļ Andar, √öteros em F√ļria, Gonorreia, Esp√≠rito de Porco, Ramal 12 e a mais bem-sucedida delas, Camisa de V√™nus, liderada pelo ex-radialista e jornalista Marcelo Nova, f√£ de Elvis Presley e Raul Seixas. Ele e o baixista Rob√©rio Santana, ap√≥s verificarem uma s√©rie de coincid√™ncias em seu gosto musical, decidiram montar um grupo de Rock, cheio de irrever√™ncia e letras inc√īmodas.

Em tr√™s anos, estavam gravando o primeiro disco em S√£o Paulo, que seria puxado pela infame Bete Morreu. Apesar da disposi√ß√£o, a banda foi demitida da gravadora por se recusar a mudar de nome. Essa celeuma n√£o foi suficiente para arranhar o prest√≠gio do grupo, que seguiria carreira ao longo dos anos 1980, emplacando sucessos como Eu N√£o Matei Joana D'Arc, Hoje, S√≥ O Fim e Simca Chambord. O sucesso alcan√ßado pela banda seria pouco se comparado com a produ√ß√£o Pop de exporta√ß√£o para o resto pa√≠s, que se instalaria na cidade. Artistas como Chiclete Com Banana, Banda Reflexus, Asa de √Āguia, Banda Beijo e Cid Guerreiro (anteriormente conhecido como Cid Pororoca), entre outros, levariam ao restante do pa√≠s uma sonoridade que misturava elementos locais com a abordagem Pop da √©poca, que tornar-se-ia sin√īnimo de toda a produ√ß√£o cultural da cidade para o resto do pa√≠s. Subitamente, as can√ß√Ķes que eram sucesso apenas no Carnaval, seriam executadas nos meios de comunica√ß√£o de massa (pertencentes a apenas uma fam√≠lia) o ano todo.

Essa l√≥gica seria mais dominante a partir do in√≠cio da d√©cada seguinte, com o advento do que se entendeu por Ax√©-Music, de grupos como √Č O Tchan e forma√ß√Ķes descentes da d√©cada anterior, com Banda Eva, Banda Cheiro de Amor, entre outras. Mesmo assim, a cena local produzia artistas no mesmo ritmo, que precisavam de √Ęnimo redobrado nas tentativas de furar este bloqueio para gravar e divulgar seu trabalho. Uma banda a conseguir isso foi a √öteros em F√ļria, que, apesar de existir desde 1986, conseguiu gravar seu primeiro - e √ļnico - CD em 1993, pelo selo Natasha. O som melanc√≥lico da Treblinka tamb√©m fazia sucesso, e, assim como o Rockabilly de Dead Billies, tamb√©m conseguiu proje√ß√£o local enquanto novas bandas come√ßaram a surgir. Da Cidade Baixa vinha Maria Bacana, liderada pelo guitarrista e vocalista Andr√© Mendes, que foi contratada pelo selo carioca Rock It, do ex-Legi√£o Urbana, Dado Villa-Lobos. Tamb√©m vieram Cascadura, Dois Sapos e Meio, Inkoma, Lampir√īnicos, brincando de deus (em min√ļsculas) e Pen√©lope Charmosa, que, ao fazer sucesso, se chamaria apenas Pen√©lope. Em paralelo, uma quantidade razo√°vel de lojas alternativas sustentava a cena, como Kaya e Coringa.

A d√©cada de 2000 viu surgir Pitty, que era vocalista do grupo Inkoma. Com proje√ß√£o nacional, podemos dizer que a mo√ßa √© o principal nome de um cen√°rio ainda capaz de produzir nomes interessantes. Bons exemplos n√£o faltam: Nancyta e os Grazzers, Andr√© Mendes, que tem carreira solo bastante elogiada, est√° em seu terceiro √°lbum, Erika Martins, ex-Pen√©lope, tamb√©m est√° produzindo novos trabalhos, o trio Retrofoguetes tamb√©m segue fazendo shows com sua mistura de Rock cl√°ssico e instrumental, Ronei Jorge e Ladr√Ķes de Bicicleta, Cascadura (que segue em atividade), Vivendo do √ďcio e uma das revela√ß√Ķes do ano passado, Russo Passapusso, nativo de Feira de Santana, mas que adotou a capital como sua musa inspiradora na cria√ß√£o de uma sonoridade eminentemente urbana. Russo tamb√©m √© l√≠der da BaianaSystem, banda que rel√™ e atualiza as sonoridades setentistas da guitarra baiana.

Em meio ao dom√≠nio cultural de Ax√©, Pagode, Arrocha e demais ritmos feitos para todo mundo pular sem pensar, Salvador segue viva e cr√≠tica. De vez em quando, sua verdadeira voz √© ouvida aqui e ali. Temos que apurar os ouvidos e prestar aten√ß√£o, porque, creiam, sua m√ļsica, cultura e vis√£o de mundo s√£o muito mais que uma micareta de gente indo e vindo de e para lugar nenhum.

Fonte: Monkeybuzz



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