Instituto Pensar - O socialismo criativo do PSB e as v√°rias formas de propriedade

O socialismo criativo do PSB e as v√°rias formas de propriedade

Humberto Pradera

Por Domingos Leonelli*

Aspiramos a uma valoriza√ß√£o das v√°rias formas de propriedade, desde a estatal em √°reas estrat√©gicas, passando pela propriedade privada, at√© as formas coletivas como cooperativas, coletivos culturais, empresas dirigidas por trabalhadores, empresas associadas a universidades. Vemos na for√ßa da inova√ß√£o o potencial de desabrochar a criatividade do nosso povo j√° revelada tanto nas artes, como na m√ļsica, no futebol, na arquitetura, no artesanato.

O conceito de socialismo criativo decorre da necessidade de incorporar ao socialismo democr√°tico a ideia for√ßa da modernidade econ√īmica, cultural e, que deveria ser tamb√©m da pol√≠tica: a criatividade. Pretende se constituir num objetivo de longo prazo e tamb√©m numa certa metodologia para a luta cotidiana, com novas formas de organiza√ß√£o e da a√ß√£o dos socialistas. 

O socialismo, desde a revolu√ß√£o Russa, j√° passou por muitas transforma√ß√Ķes e recebeu as mais variadas interpreta√ß√Ķes. Foi implantado, no s√©culo XX, como "ditadura do proletariado¬Ē em pa√≠ses que compunham a antiga Uni√£o Sovi√©tica, na China, em Cuba, na Coreia do Norte, na sua forma cl√°ssica com meios de produ√ß√£o como propriedade do Estado e partido √ļnico. 

Com a denomina√ß√£o de socialismo democr√°tico governos socialistas transformaram boa parte da Europa no chamado "WelfareState¬Ē. Embora sob o regime capitalista, alargaram enormemente os direitos sociais √† educa√ß√£o, √† sa√ļde, √† cultura e a sal√°rios dignos. E fizeram isso aprofundando a democracia, taxando fortemente os ganhos de capital e investindo em inova√ß√£o e tecnologia. Era o "socialismo n√≥rdico¬Ē, muito significativo em pa√≠ses como Su√©cia, Dinamarca, Finl√Ęndia e Noruega. Governos socialistas alternaram-se tamb√©m na Fran√ßa, na Espanha, na Inglaterra (trabalhista) e, agora, em Portugal. 

Alguns desses socialismos simplesmente desmoronaram como a Uni√£o Sovi√©tica e seus "sat√©lites¬Ē, a Alemanha Oriental e experi√™ncias autogestion√°rias do socialismo da Iugosl√°via do Marechal Tito. Outros pa√≠ses socialistas vivem em grandes dificuldades, como Cuba e Coreia do Norte.

H√° tamb√©m um socialismo africano, mais como uma vertente anti-colonialista e afirmativa de identidades nacionais do que como uma organiza√ß√£o econ√īmica,social e pol√≠tica. No Senegal , Leopold  Senghor e em Gana, Kwame Nkrumah, chegaram mais longe em suas formula√ß√Ķes te√≥ricas que marcam a diferencia√ß√£o do socialismo real e das sociais democracias europ√©ias. Julius Nyereree que na Tanz√Ęnia obteve bons n√≠veis de desenvolvimento na educa√ß√£o e sa√ļde, tentou um tipo de organiza√ß√£o denominada Ujamaa que n√£o parece ter avan√ßado muito. Angola e Mo√ßambique denominaram-se rep√ļblicas socialistas depois da liberta√ß√£o, mas n√£o evolu√≠ram muito nessa dire√ß√£o. 

Na Am√©rica Latina, al√©m de Cuba, socialista mesmo, os socialistas governaram democraticamente, recentemente, a Bol√≠via, o Uruguai e o Chile com relativo sucesso. A Venezuela n√£o conta, pois n√£o existe socialismo com 1.000.000% (um milh√£o por cento) de infla√ß√£o. E no Brasil as experi√™ncias dos governos lulo-petistas, do qual fizemos parte, embora tenham realizado grandes avan√ßos sociais, n√£o foram capazes de efetuar transforma√ß√Ķes estruturais.

Todas essas modalidades de socialismo desenvolveram-se na vig√™ncia da segunda e da terceira revolu√ß√Ķes industriais. No tempo em que a classe oper√°ria ainda era decisiva, detentora do poder de parar a produ√ß√£o e se constituir na vanguarda revolucion√°ria. Nesse tempo (at√© a d√©cada de 50 do s√©culo passado), mais de 25% da popula√ß√£o norte-americana, por exemplo, trabalham em ch√£o de f√°brica, hoje, menos de 8% trabalham assim. 

Rob√īs, intelig√™ncia artificial, computadores, design de processos e produtos fazem da 4¬™ Revolu√ß√£o Industrial o mais disrruptivo movimento econ√īmico de todos os tempos. "A revolu√ß√£o tecnol√≥gica dos √ļltimos anos est√° resultando numa nova era, em que as rela√ß√Ķes de produ√ß√£o est√£o sofrendo profundas transforma√ß√Ķes. Os ciclos de inova√ß√£o aceleram-se de forma mais radical e muito mais r√°pida que na primeira, na segunda e na terceira Revolu√ß√£o Industrial¬Ē como diz o documento da Autorreforma do Partido Socialista Brasileiro.

Surge um novo paradigma de desenvolvimento e tamb√©m uma nova sociedade, marcada por mudan√ßas r√°pidas como a que se operou da comunica√ß√£o digital predominante at√© o final do s√©culo XX, para a intercomunica√ß√£o individual do s√©culo XXI, formando o que o espanhol Manuel Castells chamou de "sociedade em rede¬Ē. 

E se o capitalismo revelou uma incr√≠vel capacidade de criar produtos de valor universal, exportando culturas e at√© modos de vida, o socialismo, supostamente seu suced√Ęneo hist√≥rico, precisar√° demonstrar um potencial criativo pelo menos igual. 

Se o capitalismo criou uma poderosa economia criativa, intensiva em informa√ß√£o, intelig√™ncia, conhecimento, cultura, marketing e design, os chamados elementos intang√≠veis, o socialismo precisa criar uma sociedade criativa, sustent√°vel e humana. "Se a criatividade capitalista tem como objetivo principal amplia√ß√£o do mercado e do lucro, a criatividade socialista dever√° ter como objetivo a amplia√ß√£o dos espa√ßos de liberdade na sociedade e o bem-estar das pessoas¬Ē, diz ainda o texto da Autorreforma do PSB.

Prometendo ampliar o que chama de "democracia consultiva socialista¬Ē, a China √© o  pa√≠s socialista que mais apostou na pesquisa, na ci√™ncia e na tecnologia,no marketing, enfim na economia criativa. O socialismo com caracter√≠sticas chinesas, tamb√©m conhecido como "socialismo de mercado¬Ē, tamb√©m jogou pesado na educa√ß√£o como base da forma√ß√£o do seu capital humano. 

Ao inv√©s de demolir o sistema capitalista das prov√≠ncias de Macau e Hong-Kong, estimulou o desenvolvimento de empresas privadas ali existentes. E j√° √© a segunda economia do mundo. Uma economia planejada convivendo com a iniciativa privada. 

Aprendendo com todos, mas sem querer imitar nenhuma revolução, nem copiar nenhum modelo, os socialistas brasileiros entendem que a ideia de um socialismo criativo é a resposta mais aproximada para a crise do capitalismo brasileiro tecnologicamente atrasado, socialmente desigual e ambientalmente insustentável.

Um capitalismo que √© moderno no consumo (uber, celulares) mas n√£o na produ√ß√£o. Um capitalismo que n√£o explora seu diferenciais competitivos como seus biomas florestais, da caatinga, seus rios e seu mar e acomodou-se como exportador de commodities, ao inv√©s de exportar produtos de valor agregado . 

Assim ,para ser socialista hoje √© preciso tentar imaginar o mundo de amanh√£ para o Brasil. 

A terrivel e cruel desigualdade em nosso Pais, tem que encontrar na criatividade ¬Ė a principal mat√©ria prima da produ√ß√£o econ√īmica mundial ¬Ė uma sa√≠da para super√°-la. N√£o que a economia criativa seja uma panaceia universal, mas a verdade √© que os novos elementos da revolu√ß√£o tecnol√≥gica, da economia do conhecimento, podem e devem ser incorporados a luta pela igualdade. A revolu√ß√£o brasileira, n√£o enquanto insurrei√ß√£o mas sim como transforma√ß√£o estrutural, precisa se adaptar ao seu tempo. 

Assim é que apostamos na economia criativa como estratégia de desenvolvimento e no socialismo criativo como objetivo de longo prazo.

O socialismo criativo pretende se constituir em vis√£o cr√≠tica da economia criativa, no que ela tem de concentradora de capital monopolista e geradora de desigualdade. Ser, enfim, a dimens√£o humana do desenvolvimento das for√ßas produtivas e da revolu√ß√£o tecnol√≥gica. 

Propomos medidas como o ensino fundamental moderno e tecnol√≥gico gratuito e obrigat√≥rio para todos as crian√ßas brasileiras, para garantir uma base de igualdade de oportunidades. 

Aspiramos a uma valorização das várias formas de propriedade, desde a estatal em áreas estratégicas, passando pela propriedade privada, até as formas coletivas como cooperativas, coletivos culturais, empresas dirigidas por trabalhadores, empresas associadas a universidades.

Vemos na for√ßa da inova√ß√£o o potencial de desabrochar a criatividade do nosso povo j√° revelada tanto nas artes, como na m√ļsica, no futebol, na arquitetura, no artesanato. 

Acreditamos no direito √† felicidade do nosso povo e numa sociedade criativa e socialista. 

* Coordenador do site Socialismo Criativo, presidente do Instituto Pensar e integrante da Executiva Nacional do PSB

Fonte: Brasil 247



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