Instituto Pensar - A Centralidade Perdida I e II

A Centralidade Perdida I e II

A Centralidade Perdida (I)

Confesso que me incomoda um pouco ouvir falar em revitaliza√ß√£o do Centro Hist√≥rico. Como revitalizar? Voltar ao brilho, ao glamour, √† efervesc√™ncia elegante que pulsavam na Rua Chile, no Com√©rcio, na pr√≥pria Avenida Sete at√© os anos 60? Improv√°vel. √Č preciso retornar algumas d√©cadas na hist√≥ria para entender os problemas do Centro, hoje. Talvez algumas solu√ß√Ķes venham dessa compreens√£o.

A implanta√ß√£o do Centro Administrativo e dos shoppings centers esvaziaram o Centro de Salvador, retirando dele funcion√°rios p√ļblicos e usu√°rios dos servi√ßos, no caso do CAB. Lojas, escrit√≥rios, cinemas, migraram para os shoppings.

Foram arrancados do Centro da cidade dois elementos básicos, dois pilares sobre os quais se estruturam as cidades, historicamente: o poder e o comércio. Ou não foram os fortes, os palácios reais rodeados de feiras e mercados, que deram início aos burgos?

As cidades foram crescendo, os meios de transporte se modernizando e proporcionando novos desenhos urbanos, com bairros residenciais e √°reas comerciais e mesmo com √°reas administrativas (subprefeituras) fora do n√ļcleo central. Mas as grandes cidades sempre mantiveram os seus centros vivos, pela preserva√ß√£o essencial do poder pol√≠tico-administrativo e do alto com√©rcio.

Claro que com a moderniza√ß√£o e a complexifica√ß√£o do Estado, n√£o seriam apenas os soldados dos reis que ocupariam os pal√°cios. Reparti√ß√Ķes p√ļblicas, com milhares de funcion√°rios, passaram a povoar os antigos pal√°cios e os modernos pr√©dios da administra√ß√£o p√ļblica.
Mas o poder e o comércio mantiveram-se no Centro de cada cidade importante no mundo. Nas capitais, as sedes do poder nacional, a Casa Branca, em Washington, a Casa Rosada, em Buenos Aires, o Palácio do Eliseu, em Paris, o Palácio de Westminster, em Londres, todos invariavelmente nas áreas centrais das cidades.

Aqui em Salvador, de uma s√≥ penada, retiramos do Centro a sede do Governo do Estado, a Assembleia Legislativa, os Tribunais, quase todas as secretarias de Estado, reparti√ß√Ķes, empresas p√ļblicas. Logo depois sa√≠ram os √≥rg√£os federais, √† exce√ß√£o da Pol√≠cia Federal, da Receita Federal e da Codeba, por √≥bvio. Sa√≠ram do Centro da capital do Estado os s√≠mbolos e as estruturas do poder do Estado.

Só ficou no Centro de Salvador, o elo mais frágil da Federação que é a Prefeitura Municipal.

A implantação do Centro Administrativo da Bahia, acompanhada da implantação dos shoppings Iguatemi e Barra esvaziaram o Centro da cidade, como área central dos negócios, da administração e do poder, enfim. O Centro se transformaria nessa coisa ambígua chamada Centro Histórico ou Centro Antigo.

Foi um erro hist√≥rico, estrat√©gico, cometido n√£o apenas por Ant√īnio Carlos Magalh√£es, mas por toda a sociedade baiana. N√£o me recordo de nenhuma oposi√ß√£o de peso √† implanta√ß√£o do Centro Administrativo da Bahia. Eu, inclusive, quando era publicit√°rio e trabalhava na Propeg, escrevi para um an√ļncio do governo: "construir o futuro para preservar o passado". E acreditava sinceramente naquilo.

E na extensão do CAB formou-se uma espécie de área subcentral com a Rodoviária, edifícios de escritórios comerciais e shopping centers.

Assim, parte da popula√ß√£o que se relacionava ou trabalhava nas reparti√ß√Ķes p√ļblicas foi para o CAB.

A classe média deslocou seu domicílio laboral para o CAB e seu poder de compra para os shoppings.

Contr√°rio senso, claro que √© inimagin√°vel p√īr os milhares de carros que se deslocam hoje para o Centro Administrativo e para os shoppings, no centro de Salvador, tal como ele √©. Como ficou, estagnado. Por√©m, se como em Roma, Madri, Paris e mesmo no Rio de Janeiro tiv√©ssemos investido em estacionamentos, proibido acessos de autom√≥veis a certas ruas, criado alternativas de transporte circular coletivo, a hist√≥ria seria outra.

Não teríamos substituído o Centro da nossa cidade, por um "centro histórico", ou "centro antigo". Pois o que precisamos é de um Centro da cidade vivo, não apenas revitalizado. Mas isso é assunto para o próximo artigo.

A busca da centralidade possível (II)

Apesar da implanta√ß√£o do Centro Administrativo e dos shoppings centers terem apodrecido o tecido urbano do Centro da cidade de Salvador, n√£o podemos desconhecer que tamb√©m foram fortes est√≠mulos a economia de uma cidade que nas d√©cadas de 70 e 80, mal e mal conseguia acompanhar o dinamismo econ√īmico da sua Regi√£o Metropolitana.

Segundo Paulo Henrique de Almeida, " a RMS passou a ser o lugar privilegiado da interven√ß√£o governamental, tendo como consequ√™ncia sim√©trica e indesejada desse processo o abandono do Rec√īncavo e da Ba√≠a de Todos- os-Santos como espa√ßos de planejamento e de investimento p√ļblico".

Assim, a cidade teve, nas décadas de 70 e 80, o crescimento da construção civil, com a implantação do CAB, dos shoppings e dos prédios que abrigam as empresas que vieram do Centro da cidade (43%) para a nova área comercial criada.

Enquanto isso, o Centro da cidade de Salvador sofria uma muta√ß√£o profunda no seu desenho econ√īmico e social. Pode-se dizer que foi uma mutila√ß√£o econ√īmica, social e pol√≠tica. Lembremo-nos que, entre a transfer√™ncia das sedes f√≠sicas dos poderes para o Centro Administrativo, e a restaura√ß√£o / recupera√ß√£o do Pelourinho, foram mais de 15 anos. A primeira, em meados da d√©cada de 70, e a segunda, nos anos 90.

A reestrutura√ß√£o do Pelourinho deu √† cidade o seu principal cart√£o-postal. E teria sido genial se convivesse com o Centro real: as sedes do poder, as lojas importantes, os funcion√°rios p√ļblicos comprando e vivendo o Centro da cidade. Com a reestrutura√ß√£o, sinalizou-se, tamb√©m, que o somente turismo seria a pr√≥tese √ļnica e suficiente para a mutila√ß√£o sofrida. N√£o foi e n√£o ser√°.

Depois, equivocadamente, já em nosso Governo, tentou-se secundarizar o turismo e valorizar a vida comunitária e a cultura no "bairro" do Pelourinho. Supervalorizou-se a comunidade local, como se ela desejasse ou pudesse viver sem o turismo. Depois, ainda se descobriu que não se tratava de "revitalizar" apenas o Centro Histórico mas, sim, o Centro antigo como um todo.

O turismo e a cultura podem, realmente, se constituir em fatores de grande relev√Ęncia econ√īmica para a regi√£o. Mas n√£o podem substituir uma fun√ß√£o que √© muito mais ampla, profunda e essencial: o Centro da cidade tem que ser o Centro da cidade para seus habitantes, antes de s√™-lo para os turistas e consumidores culturais.

Qualquer turista, em qualquer lugar do mundo, quer conhecer o Centro da cidade, que é também o Centro histórico, o Centro de serviços, Centro de atividades comerciais e administrativas.

O que fazer? Que nova fun√ß√£o? √Č poss√≠vel recuperar o sentido centro da cidade como um verdadeiro centro de Salvador? Talvez.

Poder√≠amos come√ßar pela revitaliza√ß√£o de pr√©dios p√ļblicos abandonados como, por exemplo, o pr√©dio dos Correios. Propriedade federal h√° mais de 20 anos, com quatro dos seus cinco andares em lambris de jacarand√° e vidros blindex de cinco cent√≠metros, transformada em cemit√©rio e sanit√°rio de pombos.

Poderia citar outros pr√©dios p√ļblicos vazios, abandonados. Mas, tamb√©m, h√° os pr√©dios privados, casar√Ķes bel√≠ssimos, caindo. Muitos deles penalizados por disputas judiciais, divis√£o de heran√ßas.
Uma lei, acompanhada de medidas judiciais, que penalizasse seriamente a manuten√ß√£o de pr√©dios vazios no Centro de Salvador e que possibilitasse ao Poder P√ļblico a ocupa√ß√£o - independentemente de desapropria√ß√£o- do im√≥vel seria muito bem-vinda. Isso teria impedido o crime do Palace Hotel, na Rua Chile, fechado por mais de 15 anos.
Ainda no √Ęmbito da Prefeitura de Salvador e de nossa C√Ęmara de Vereadores, uma outra lei incentivando fortemente a implanta√ß√£o de estacionamentos, n√£o s√≥ indicando √°reas adequadas, mais isentando de impostos esses estabelecimentos.

E, finalmente os √≥rg√£os licenciadores e a sociedade organizada (agora pela internet) precisa compreender que n√£o podem ser donos do Centro de Salvador s√≥ porque t√™m interesses ou um estabelecimento na √°rea. O Centro da cidade √© de todos os 3 milh√Ķes de habitantes de Salvador. E entendendo isso, assimilarem que o Centro n√£o pode estagnar. Que novos equipamentos podem conviver com os antigos. Que novos servi√ßos, equipamentos culturais, tur√≠sticos, de servi√ßos precisam ser implantados, para que o Centro seja o Centro da Cidade de Salvador. Inclusive para preservar o patrim√īnio hist√≥rico.

Domingos Leonelli



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