Instituto Pensar - PSB e as Elei√ß√Ķes de 2014 no Brasil e da Bahia

PSB e as Elei√ß√Ķes de 2014 no Brasil e da Bahia

A candidatura de Eduardo Campos a Presid√™ncia da Rep√ļblica abriu para o PSB a perspectiva de liderar uma posi√ß√£o de terceira via que quebrasse a polariza√ß√£o PT X PSDB no Brasil. O brilho pessoal do candidato, o aparente interesse de algumas √°reas empresariais e o entusiasmo da milit√Ęncia socialista, superaram as resist√™ncias iniciais e impulsionaram a candidatura de Eduardo Campos.

Nesse quadro estava inserida a candidatura de L√≠dice da Mata ao Governo do Estado, a de M. Novaes no Cear√°, a de Tarc√≠sio Delgado em Minas Gerais, e algumas outras que tinham como objetivo principal garantir um palanque socialista nos estados. No caso da Bahia com um grau de dificuldade maior, na medida em que o PSB conquistou um mandato de Senadora em parceria com o PT e a participou em uma secretaria e nas a√ß√Ķes do Governo Wagner por 7 anos, inaugurando obras, lan√ßando programas, em v√°rias √°reas.

Mas era preciso cumprir a tarefa partidária nacional. Mesmo com as previsíveis dificuldades: o desconhecimento nacional da pessoa de Eduardo Campos, a resistência da maioria dos governadores do PSB, o não crescimento nas pesquisas e a dificuldade na construção de alianças partidárias que ampliassem sua base política. Fatores que aos poucos foram arrefecendo a pré-campanha presidencial do PSB. Enquanto isso a candidatura de Marina Silva que se mantinha em segundo lugar nas pesquisas, foi inviabilizada com o não registro da Rede de Sustentabilidade.

A decis√£o de Marina e da Rede de incorporarem-se, provisoriamente, ao PSB reacendeu o entusiasmo partid√°rio e a forma√ß√£o da Chapa Eduardo/Marina parecia destinada ao sucesso, ou seja, provocar um segundo turno tendo como candidaturas principais a do PT e a do PSB. Essa era a primeira e a melhor das hip√≥teses. A segunda era o fortalecimento de Eduardo Campos para 2018. E a candidatura de L√≠dice na Bahia justificava-se pelas duas hip√≥teses. Com Marina ainda como vice, vem tamb√©m a candidatura da magistrada, Eliana Calmon, ao Senado, nos levando a compor na Bahia uma chapa ¬ďpuro sangue¬Ē. Houve, por exemplo, a possibilidade de uma composi√ß√£o com o PSC, contanto que lhe fosse ofertada a legenda para o Senado. N√£o hesitou, o PSB da Bahia, em recusar a oferta. Mantendo, portanto, a chapa: L√≠dice / Eduardo Vasconcelos e Eliana Calmon, tamb√©m do PSB Rede.

Ocorre que Marina como vice não conseguiu trazer para o cenário 2014 sua extraordinária performance de 2010. E, pelo menos, uma parte do empresariado que flertava com a candidatura, ou melhor, com o candidato Eduardo Campos, reduziu o apoio à pré-campanha.
Setores do eleitorado tradicional de esquerda apresentaram tamb√©m reservas √† chapa formada. E o que restava de milit√Ęncia petista, sentindo-se amea√ßada reanimou- se. Mesmo sem o apoio dos governadores do Esp√≠rito Santo, do Amap√° e do Cear√° (que havia sa√≠do do Partido), o PSB e a Rede atiraram-se com for√ßa na campanha de Eduardo/Marina que, no entanto, n√£o deslanchava nas pesquisas.
Na Bahia, L√≠dice tinha percentuais mais altos nas pesquisas que Eduardo Campos. Dizia-se que sua candidatura ¬ďpuxaria" a de Eduardo. Acontece ent√£o o inimagin√°vel: o tr√°gico acidente que ceifou a vida de Eduardo Campos e de valorosos companheiros. Todos os acordos pol√≠ticos sobre a estrutura da campanha estavam feitos com o candidato que era tamb√©m presidente do PSB Nacional. Ap√≥s dias de luto e tens√£o, Marina assume a candidatura a Presid√™ncia da Rep√ļblica. Obt√©m um r√°pido crescimento nas pesquisas e parecia a todos que iria para o 2¬ļ Turno com Dilma.

Para a Bahia parecia, tamb√©m, que a situa√ß√£o se inverteria com a candidatura de Marina a Presidente puxando a de L√≠dice para Governadora e Eliana para o Senado. Isso n√£o ocorreu. Nem na Bahia e nem em nenhum outro estado. A dificuldade de Marina era transferir votos mais relacionados ao seu ac√ļmulo pol√≠tico individual de que as estruturas org√Ęnicas partid√°rias. Escolhida como advers√°ria principal do PT, Marina sofreu um ataque cerrado e s√≥rdido por parte da campanha de Dilma. Mentiras, manipula√ß√£o e uso da superioridade econ√īmica, dos meios de comunica√ß√£o e do tempo partid√°rio de TV, foram utilizados, de forma tecnicamente perfeita, contra a sua candidatura.

Por outro lado, nem toda a pequena estrutura da campanha de Eduardo foi absorvida por Marina, que insistiu num estilo muito pessoal, correspondente √† sua imagem p√ļblica. Por√©m, diferentemente de 2010 quando correu num campo alternativo, paralelo √† disputa real, surpreendendo a todos, ela se deparou em 2014 com um quadro de verdadeira disputa. E mais, sendo o alvo principal dos ataques. Preferiu ficar fiel √† sua pr√≥pria imagem, recusou-se a responder no mesmo diapas√£o, recusou poss√≠veis alian√ßas e apoios, certa que poderia ganhar sem eles. Recusou tamb√©m tradicionais apoios financeiros, enquanto as candidaturas que lhe davam apoio nos estados estavam morrendo √† mingua. O ataque √† Marina, logo ap√≥s o an√ļncio da sua candidatura, foi muito mais feroz do que a A√©cio. Tudo indicando que o PT preferia que a candidatura tucana chegasse ao 2¬ļ Turno, contando com a aparente fragilidade do candidato. O que, ali√°s, n√£o se confirmou. A√©cio apresentaria uma grande capacidade pol√≠tica, principalmente no que diz respeito ao desejo de mudan√ßa e a insatisfa√ß√£o com o PT.

J√° na Bahia o que se viu foi a candidatura de L√≠dice ao Governo perder for√ßa em fun√ß√£o do quadro nacional e da verdadeira pen√ļria financeira e do m√≠nimo tempo de TV. Ela tinha como patamar de legitimidade pol√≠tica fornecer palanque para Eduardo Campos, com a mesma bandeira da terceira via, opondo-se √† tradicional polariza√ß√£o PT X PSDB, (aqui PT X DEM), PT e DEM, refor√ßaram a polariza√ß√£o com a estrat√©gia de voto √ļtil. √Äs pessoas que tinham resist√™ncia ao Governo Wagner, era dito pelo DEM que se precisava votar em Paulo Souto para derrotar Wagner e PT. E o PT diante da cren√ßa que a candidatura de Paulo Souto poderia ganhar, sempre √† frente das pesquisas, insistiu na mesma tese do voto √ļtil para derrotar o DEM / PDSB/ PMDB. Duas campanhas no mesmo sentido: o voto √ļtil contra a Terceira Via socialista. As duas com 4 e 6 vezes o tempo de TV e recursos financeiros que pareciam infinitos. N√£o adiantou L√≠dice possuir o melhor programa de governo, embora n√£o apresentado na sua plenitude pelo marketing de campanha. O voto √ļtil era mais forte.

O período de ouro, tanto da candidatura de Eduardo como de Lídice, foi de 6 de julho a 18 de setembro, quando se podia fazer campanha de rua, ainda não havia começado o horário eleitoral e os tempos de reportagem eram mais ou menos iguais nas TV’s abertas. Mas para isso seria necessário um mínimo de recursos para fazer a campanha de rua (palcos, cartazes, carros de som, comícios). E foi exatamente nesse momento que impediram a ascensão da 3ª Via. Não havia dinheiro. E não havia dinheiro porque também não se tinha alianças que sustentassem os percentuais (8,10 e até 14 por cento) de Lídice nas pesquisas parecia haver uma deliberação para que os recursos fossem exclusivamente para o PT e para o DEM.

A Terceira Via foi finalmente esmagada pelas m√°quinas, pelo dinheiro, pela falta de alian√ßas pol√≠ticas e pela aus√™ncia de apoio nacional. Contudo o PSB cresceu nas elei√ß√Ķes de 2014. Elegeu um deputado federal, Bebeto Galv√£o e dois deputados estaduais, Manass√©s e Fab√≠ola Mansur. Sendo que a coliga√ß√£o com o PSL e o PPL elegeu mais um deputado estadual, Nelson Leal do PSL. E, a candidatura de L√≠dice ajudou a impulsionar a candidatura ao Senado de Eliana Calmon da Rede de Sustentabilidade que recebeu do PSB apoio total desde o in√≠cio e durante toda campanha. Sem d√ļvida a candidatura de Eliana Calmon moveu-se com mais desenvoltura nos meios pol√≠ticos e jur√≠dicos em fun√ß√£o dela n√£o ter comprometimentos pol√≠ticos anteriores e levantar com legitimidade a bandeira da moralidade. Uma outra raz√£o para Eliana ter tido um pouco mais de votos do que L√≠dice deveu-se ao fato dela n√£o ter sido, tanto quanto L√≠dice, objeto da press√£o pelo voto √ļtil.
Assim, tanto no Brasil quanto na Bahia, a tese da Terceira Via √© derrotada nas urnas, e com ela as ideias de altern√Ęncia de poder com a manuten√ß√£o das conquistas sociais, mudan√ßas na pol√≠tica econ√īmica e do desenvolvimento sustent√°vel. E no 2¬ļ Turno restou ao Brasil e √† Bahia a op√ß√£o entre dois projetos insuficientes para responder a um novo ciclo de desenvolvimento do Brasil. Um comandado pelo PT e suas alian√ßas √† esquerda e a direita e outro comandado pelo PSDB, com suas alian√ßas ao centro e √† direita.

O PSB, atrav√©s de sua Comiss√£o Executiva Nacional, em nome da ideia de mudan√ßa opta pelo apoio √† candidatura de A√©cio Neves, numa decis√£o que lhe custou a perda do seu presidente Roberto Amaral, representante do grupo hist√≥rico de reconstru√ß√£o do Partido ap√≥s o golpe militar de 64. Embora decidido por larga maioria de votos, esta posi√ß√£o n√£o teve o apoio da deputada Luiza Erundina, dos senadores Jo√£o Alberto Capiberibe, Ant√īnio Carlos Valadares e L√≠dice da Mata e dos governadores Ricardo Coutinho da Para√≠ba e Camilo Capiberibe do Amap√°. Frente a este quadro a Executiva Nacional ressalvou da decis√£o, as especificidades de cada Estado. A Bahia se auto enquadrou nessa excepcionalidade.

A posi√ß√£o da Bahia, tamb√©m por maioria da Executiva Provis√≥ria Regional, foi de apoiar no 2¬ļ Turno a candidatura de Dilma Rousseff do PT. Defendemos no 1¬ļ Turno das elei√ß√Ķes presidenciais e estadual a tese de que era poss√≠vel avan√ßar mais que o PT na administra√ß√£o e na pol√≠tica. Com a impossibilidade de viabilizar a tese de uma Terceira Via Socialista que avan√ßasse mais pela esquerda e tamb√©m com o alinhamento de toda a direita brasileira, a exce√ß√£o do PSB e do PV, com a candidatura de A√©cio Neves, restou-nos na Bahia apoiar a candidatura que com todos os seus equ√≠vocos, ainda assim, representava um projeto geral de esquerda. E na Bahia onde a elei√ß√£o estadual foi decidida no 1¬ļ Turno com a vit√≥ria surpreendente do candidato do PT ao Governo do Estado, havia tamb√©m o agravante de que o projeto de A√©cio Neves foi comandado pelo DEM e nossos advers√°rios hist√≥ricos, inclusive pelos algozes da administra√ß√£o de L√≠dice da Mata na Prefeitura de Salvador.
Tanto na Bahia como no Brasil viveu-se a maior polariza√ß√£o dos √ļltimos anos da hist√≥ria pol√≠tica brasileira. A√©cio revelou capacidade de enfrentamento com o PT e transformou apoios eleitorais em certa milit√Ęncia pol√≠tica volunt√°ria de classe m√©dia, de centro-direita. O que preocupa √© que este movimento n√£o se esgotou nas elei√ß√Ķes e pode resultar num tensionamento crescente para o novo governo da Presidente Dilma. As pedras de toque desse tensionamento s√£o o baixo crescimento econ√īmico, a alta da infla√ß√£o e os esc√Ęndalos de corrup√ß√£o. Sendo que a corrup√ß√£o constitui-se no fator de maior amplitude na medida em que mobiliza, hipocritamente, a direita e, sinceramente, o centro e alguns segmentos de esquerda.

A Presidente Dilma tem, portanto, a necessidade de transformar os compromissos com a retomada do crescimento econ√īmico, de deter a alta da infla√ß√£o e tomar medidas pol√≠ticas e administrativas de combate claro e sem tr√©guas √† corrup√ß√£o, mesmo que para isso seja obrigada a reformular o seu leque de alian√ßas pol√≠ticas e partid√°rias. E se isso vier a ocorrer, ou seja, se a Presidente for, realmente, levada a praticar a√ß√Ķes efetivas em torno dos temas acima citados, caberia ao PSB Nacional integrar essa reformula√ß√£o do leque partid√°rio de apoio ao Governo Dilma.

No plano estadual, tendo participado da campanha presidencial ao lado de Wagner e Rui, n√£o abrimos m√£o de nossas posi√ß√Ķes cr√≠ticas em rela√ß√£o √†s pol√≠ticas do PT. E entendemos que n√£o tendo participado da campanha vitoriosa de Rui Costa, cabe-nos manter numa posi√ß√£o de independ√™ncia sem participa√ß√£o no Governo, mas aberto ao di√°logo para fazer a Bahia avan√ßar ainda mais.

Domingos Leonelli
03.11.2014



0 Coment√°rio:


Nome: Em:
Mensagem: