Instituto Pensar - Financial Time lança campanha pelo recomeço do capitalismo

Financial Time lança campanha pelo recomeço do capitalismo

brit√Ęnico Financial Times, considerado a "b√≠blia¬Ē do jornalismo econ√īmico, lan√ßou, em sua edi√ß√£o impressa desta quarta-feira (18/09), uma campanha reivindicando "um recome√ßo¬Ē para o capitalismo, proposta j√° defendida por alguns dos mais not√°veis economistas do mundo.

Mas por quê?

Em carta ao leitores, o diretor de reda√ß√£o do di√°rio, Lionel Barber, diz que o modelo capitalista que conhecemos est√° "sob press√£o¬Ē.

"O Financial Times acredita no capitalismo de livre iniciativa. √Č a base para a cria√ß√£o de riqueza que gera empregos, mais dinheiro e mais impostos¬Ē, escreve Barber.

"O modelo capitalista liberal proporcionou paz, prosperidade e progresso tecnol√≥gico nos √ļltimos 50 anos, reduzindo dramaticamente a pobreza e elevando os padr√Ķes de vida ao redor do mundo¬Ē, acrescenta.

"Mas na d√©cada seguinte √† crise financeira global (2008), esse modelo ficou sob press√£o, especialmente em rela√ß√£o √† maximiza√ß√£o dos lucros e do valor para o acionista. Esses princ√≠pios do bom neg√≥cio s√£o necess√°rios, mas n√£o suficientes¬Ē, acrescenta.

Para Barber, a sustentabilidade do capitalismo de livre iniciativa vai depender "de entregar lucro com um prop√≥sito. As empresas v√£o entender que essa combina√ß√£o serve tanto a seu interesse pr√≥prio quanto a seus clientes e funcion√°rios. Sem essa mudan√ßa, o rem√©dio tende a ser bem mais amargo¬Ē.

"O capitalismo de livre iniciativa mostrou uma capacidade not√°vel para se reinventar. √Äs vezes, como o historiador e pol√≠tico Thomas Babington Macaulay assinalou sabiamente, √© necess√°rio reformar para preservar. Hoje, o mundo chegou a esse momento. √Č tempo para um rein√≠cio¬Ē.

Cenário pós-colapso

A campanha do Financial Times segue na linha de uma proposta j√° defendida por alguns dos mais not√°veis economistas do mundo.

Em livros publicados recentemente, o indiano Raghuram Rajan e o brit√Ęnico Paul Collier argumentam que o capitalismo deixou de atender √†s necessidades mais urgentes da popula√ß√£o.

Em The Third Pillar: How Markets and the State Leave Community Behind (O Terceiro Pilar: Como Mercados e o Estado deixam a comunidade para tr√°s, em tradu√ß√£o livre), Rajan, que foi presidente do Banco Central da √ćndia e economista-chefe do FMI (Fundo Monet√°rio Internacional), lamenta o desaparecimento das comunidades locais diante dos grandes mercados governamentais e de massa.

J√° Collier, autor de O futuro do capitalismo: Enfrentando as novas inquieta√ß√Ķes e professor de economia e pol√≠ticas p√ļblicas na Escola de Governo Blavatnik da Universidade Oxford, no Reino Unido, discorre sobre a tend√™ncia da meritocracia de concentrar talento e dinheiro.

Enquanto isso, os efeitos do capitalismo no aumento da desigualdade de renda estão no centro da crítica do economista francês Thomas Piketty.

Em entrevista recente √† BBC, Rajan disse que o capitalismo est√° "sob s√©ria amea√ßa¬Ē.

"Acho que o capitalismo est√° sob s√©ria amea√ßa porque parou de atender √†s necessidades das pessoas, e quando isso acontece, muitos se revoltam contra o sistema¬Ē, afirmou.

Rajan disse que no passado era poss√≠vel obter um emprego de classe m√©dia com "educa√ß√£o modesta¬Ē.

Mas o cenário mudou após a crise financeira global de 2008 e a austeridade que se seguiu ao colapso dos mercados.

"Agora, se voc√™ realmente quer ter uma carreira bem-sucedida, precisa de uma educa√ß√£o realmente boa¬Ē, disse ele √† BBC Radio 4.

"Infelizmente, as pr√≥prias comunidades atingidas pelas for√ßas do com√©rcio global e da informa√ß√£o global tendem a ser comunidades com escolas em deteriora√ß√£o, crime em ascens√£o, doen√ßas, e incapazes de preparar seus integrantes para a economia global¬Ē, acrescentou.

Para Rajan, o capitalismo est√° sendo questionado porque n√£o vem oferecendo oportunidades iguais.

Segundo o economista, regimes autorit√°rios surgem "quando se socializam todos os meios de produ√ß√£o¬Ē.

J√° Collier sugeriu, em entrevista √† revista semanal brit√Ęnica New Statesman: "Mova-se para a esquerda na economia e fale a l√≠ngua do pertencimento¬Ē.

Segundo ele, o capitalismo n√£o vem atendendo "√†s nossas gritantes disparidades sociais¬Ē. Al√©m disso, as elites vivem completamente isoladas do restante da popula√ß√£o.

"Perdi a conta das vezes em que me disseram: ¬ĎN√£o s√≥ n√£o conhe√ßo algu√©m que votou pelo Brexit, como tamb√©m n√£o conhe√ßo ningu√©m que conhe√ßa algu√©m que votou pelo Brexit.¬í Nos Estados Unidos, ou√ßo exatamente o mesmo sobre Trump.¬Ē

"A elite se afastou do restante da popula√ß√£o. A elite vive nessa bolha social e intelectual e n√£o percebeu ou se preocupou com a cis√£o ¬ó e foi presun√ßosa¬Ē.

Polêmica

Mas, em um artigo de opini√£o recente no site da Bloomberg, Noah Smith, professor-assistente da Universidade Stony Brook, nos Estados Unidos, afirmou que "a quest√£o realmente importante n√£o √© se o capitalismo est√° quebrado, mas o que deve ser feito para consertar o sistema econ√īmico¬Ē.

"Os sistemas econ√īmicos s√£o constru√ß√Ķes complexas que evoluem com o tempo ¬ó at√© mesmo um grupo muito inteligente de pessoas cometer√° erros enormes se tentarem criar algo totalmente diferente. E a implementa√ß√£o de mudan√ßas sociais radicais nunca √© f√°cil ¬ó as revolu√ß√Ķes tendem a ser violentas e ca√≥ticas, e as pessoas que acabam no poder geralmente s√£o as que mais se preocupam em preservar sua domina√ß√£o, em vez de garantir o bem-estar material das pessoas que elas governam¬Ē, escreveu ele.

Na opini√£o de Smith, "em vez disso, parece extremamente prov√°vel que a abordagem mais bem-sucedida seja modificar o sistema atual ¬ó reformar e n√£o revoltar-se contra ele. Qualquer que seja o resultado, ser√° uma economia mista, onde os pap√©is do governo e do setor privado s√£o alterados para abordar as quest√Ķes mais prementes¬Ē, concluiu.

Fonte: BBC




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