Instituto Pensar - Francesco Farruggia celebra sucesso da terceira edição da Campus Party Brasília

Francesco Farruggia celebra sucesso da terceira edição da Campus Party Brasília

Presidente do Instituto Campus Party, Francesco Farruggia. Foto: Acácio Pinheiro/Agência Brasília.

O presidente do Instituto Campus Party, o italiano Francesco Farruggia, recebeu o site Socialismo Criativo na tarde de sábado, 22/6, para uma conversa sobre economia criativa. Durante a entrevista, ele se mostrou animado com o resultado da terceira edição da Campus Party em Brasília, que superou as expectativas e reuniu mais de 100 mil pessoas no espaço gratuito do evento realizado durante cinco dias no Estádio Nacional Mané Garrincha. A maior imersão tecnológica do mundo ofereceu mais de 350 horas de atividades, com 300 palestrantes, 110 workshops e 9 mil campuseiros — 3 mil ficaram acampados. A próxima edição está confirmada: de 29 de janeiro a 2 de fevereiro de 2020.

Socialismo Criativo — Qual a sua avaliação sobre a terceira edição da Campus Party em Brasília?

Francesco Farruggia — Maravilhosa. Quando fomos convidados para fazer a Campus Party em Brasília, tínhamos uma percepção de que era uma cidade mais orientada para a questão burocrática, para a administração pública, e que não teria muito nexo com a economia digital. Foi uma surpresa muito grande, porque hoje estamos na terceira Campus Party e é a segunda maior do mundo, atrás de São Paulo onde estamos há 14 anos.

Socialismo Criativo — Fale sobre a sua empatia com a juventude.

Francesco Farruggia — A empatia é deles e eu agradeço à juventude por me fazer jovem, me dar energia e me ensinar. Temos que ter a humildade de aprender com eles, que sabem mais do que nós. Isso não faz parte do nosso mindset, da nossa maneira de pensar. Nós pensamos que temos que ensinar e eles sabem mais do que nós. A humildade para aprender com os jovens  tem que estar presente entre os professores e reitores de universidade, professores de escolas etc. Há dificuldade de entender que, hoje, a garotada aprende sozinha. Pela primeira vez, filhos e netos ensinam aos pais e aos avós.

Socialismo Criativo — Qual a razão para o vácuo entre os governantes e a juventude brasileira?

Francesco Farruggia — Eu acho que não é um problema brasileiro e sim do mundo. Nós estamos em uma mudança de paradigma, saindo da era industrial para entrar na era digital. Os governantes são da era industrial, pensam de maneira industrial e não entenderam como é o mundo digital. Então se cria essa brecha, essa diferença entre os jovens. Na minha geração, que não tinha carro não tinha pênis. Quanto maior o carro, maior o pênis. Os jovens de hoje não querem carros, não querem bicicletas, não querem marcas. O dinheiro não é a única coisa que norteia a vida deles, e sim o propósito e fazer o que gosta . Sabem que precisam de dinheiro para viver, mas são muito melhores do que nós. Não tínhamos consciência ecológica ou sensibilidade social. A juventude sabe que tem que mudar o mundo, que não está andando em uma direção justa, e que têm essa missão.

Socialismo Criativo — Como desenvolver políticas públicas para promover a economia criativa como estratégia para o desenvolvimento sustentável?

Francesco Farruggia — Não é fácil. Eu não gostaria de ser ministro do Trabalho, quando não vai mais haver trabalho. O Poder Executivo, o governante, tem um problema que é a contingência e precisa de soluções para o presente. O mesmo mecanismo democrático que o elege é perverso, se não resolve não será votado e não vai continuar a governar. Isso deixa muito pouco espaço para energia, recursos humanos e econômicos e para planejar e criar mecanismos novos. Eu não acho que o Poder Executivo tenha que ter essa missão. Acho que o Poder Legislativo desempenharia essa função. Deputados e senadores deveriam chamar a garotada e perguntar o que precisa ser feito, entender esse mundo novo que está crescendo para criar os pressupostos legais e burocráticos para que isso seja mais fácil.

Outro grande desafio é a Educação. Temos uma educação que tem 1200 anos na qual o professor ensina, os alunos aprendem e é feito um teste para avaliar a aprendizagem. Isso não funciona mais. Hoje, a tecnologia é tão rápida e incide tão fortemente no cotidiano, na realidade, que não tem tempo de ser aprendida, ensinada. As universidades e escolas precisam se renovar. Essa questão não vai ser resolvida cortando verbas ou resistindo às mudanças. É um processo, uma transição que vai ser complicada e difícil. Mas eu sou otimista e sei que o mundo vai ser melhor. Vai passar por situações complexas, mas será melhor. Já é melhor do que há 10 anos, 15 anos, 100 anos e 150 anos.

Hoje, a tecnologia é tão rápida e incide tão fortemente no cotidiano, na realidade, que não tem tempo de ser aprendida, ensinada. As universidades e escolas precisam se renovar. Essa questão não vai ser resolvida cortando verbas ou resistindo às mudanças. É um processo, uma transição que vai ser complicada e difícil. Mas eu sou otimista e sei que o mundo vai ser melhor.

Francesco Farruggia

Socialismo Criativo — Como aproveitar a inteligência da garotada e a tecnologia para o desenvolvimento sustentável do país?

Francesco Farruggia  —  Eu acho que passa muito pelo Legislativo, pelo Congresso Nacional, para mudar as regras do jogo, que são da economia industrial e não da economia digital. Nós perdoamos impostos de indústria, mas não damos grana a um garoto que tem uma ideia maravilhosa na área da tecnologia. Para indústria, damos milhões e não damos R$ 50 mil para um jovem criar sua startup. Há pouco tempo, jovens a partir de 14 anos passaram a poder ter uma empresa. Esse é o tipo de coisa que precisa mudar. É preciso mudar o ecossistema que permite que essa energia se desenvolva. A economia digital empodera os que menos têm. Antes, mesmo se você fosse a uma universidade não poderia mudar o mundo. Hoje, um garoto do interior de Goiás pode mudar o mundo. Porque tem acesso ao mesmo conhecimento que tem um garoto de Nova York, Londres ou Buenos Aires. Isto é democrático, é uma grande força. Hoje temos uma juventude muito mais preparada do que era a juventude da revolução industrial. Temos que levar essa oportunidade de ter acesso a essa tecnologia.

Por isso, criamos o programa Include, no qual levamos laboratório de robótica para favelas e comunidades distantes dos centros urbanos. Se esse jovem não sabe que isso existe, estará sempre excluído. Se levamos as oportunidades e eles entram e aprendem, depois, com a criatividade e a fantasia —  que não nascem em zonas de conforto de meninos ricos com a facilidade com que nascem para o menino da favela que desde cedo precisa se virar. A cabeça destes jovens das periferias tem predisposição para resolver problemas melhor que um menino que está na sua zona de conforto. Temos hoje 70% da juventude nessa realidade de áreas suburbanas, degradadas, distantes dos centros e sem oportunidade. Nenhum país será grande se excluir 70% da sua energia.




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