Instituto Pensar - Economia política da desinformação é a principal ameaça à democracia

Economia política da desinformação é a principal ameaça à democracia

Foto: Vitor Necchi

por Jo√£o Vitor Santos em 17/12/2018.

Entrevista especial com Rafael Zanatta

A experi√™ncia da campanha eleitoral de 2018 e a enxurrada de not√≠cias falsas postas em circula√ß√£o via WhatsApp levaram muitas pessoas a questionar a validade do aplicativo. O pesquisador Rafael Zanatta √© direto ao afirmar que "o WhatsApp n√£o √©, em si, uma amea√ßa √† democracia¬Ē. E se √© claro que n√£o se pode demonizar a ferramenta, tamb√©m n√£o se pode cair no engodo de conceber uma esp√©cie de crivo pr√©vio das mensagens, o que colocaria a privacidade e liberdade de express√£o em xeque em nome do combate √†s informa√ß√Ķes falsas. "N√£o √© necess√°rio quebrar a criptografia do WhatsApp para avan√ßar em investiga√ß√Ķes¬Ē, defende. E acrescenta: "n√£o precisamos colocar todo mundo em situa√ß√£o de risco em troca do acesso √†s comunica√ß√Ķes de um pequeno grupo de criminosos¬Ē.

Segundo Rafael, a quest√£o reside no que chama de "economia pol√≠tica da desinforma√ß√£o¬Ē que √© gerada. "O que √© uma amea√ßa √† democracia √© a organiza√ß√£o de uma ¬Ďeconomia da desinforma√ß√£o¬í que tem sido utilizada por novos movimentos pol√≠ticos e que se vale intensamente de aplica√ß√Ķes de internet como o WhatsApp em raz√£o de seu efeito em rede e baixo custo operacional¬Ē, aponta, na entrevista concedida por e-mail √† IHU On-Line. E por isso defende que se conhe√ßam detalhadamente os processos de comunica√ß√£o que se d√£o a partir dessas ferramentas. Isso porque, do contr√°rio, se estaria agindo apenas em casos espec√≠ficos, como o do WhatsApp, enquanto a quest√£o deve ser tratada de forma mais abrangente, levando em conta outras empresas. "O desafio regulat√≥rio est√° muito mais nessa economia pol√≠tica da desinforma√ß√£o, na regula√ß√£o desses atores econ√īmicos que desenvolvem ¬Ďsolu√ß√Ķes¬í e ¬Ďprodutos de gest√£o de grupos¬í de WhatsApp e que atuam como consultorias de ¬Ďestrat√©gia digital¬í¬Ē, reitera. "Acho, tamb√©m, que o problema est√° na legisla√ß√£o eleitoral, que precisa levar a s√©rio a tarefa de obrigar o detalhamento de quais os servi√ßos prestados por consultorias de ¬Ďestrat√©gia digital¬í e quais as tecnologias utilizadas por essas consultorias para realiza√ß√£o de campanha¬Ē, completa.

Sobre as a√ß√Ķes realizadas ao longo da campanha de 2018, reconhece que denunciam o despreparo dos √≥rg√£os e institui√ß√Ķes em lidar com esse novo tema. "Todas essas ideias, no entanto, surgiram de √ļltima hora, quando o problema da desinforma√ß√£o se mostrou concreto, em outubro de 2018. Infelizmente, todos n√≥s ¬Ė ONGs, centros de pesquisa, empresas, representantes do poder p√ļblico ¬Ė n√£o conseguimos antever a real dimens√£o dos problemas¬Ē, reconhece.

Rafael A. F. Zanatta √© pesquisador em Direito e Sociedades Digitais, mestre em Direito e Economia Pol√≠tica pela International University College of Turin e mestre em Sociologia Jur√≠dica pela Universidade de S√£o Paulo - USP, onde foi coordenador do N√ļcleo de Direito, Internet e Sociedade. Graduou-se em Direito na Universidade Estadual de Maring√° - UEM.

Rafael A. F. Zanatta ¬Ė O WhatsApp n√£o √©, em si, uma amea√ßa √† democracia. O que √© uma amea√ßa √† democracia √© a organiza√ß√£o de uma "economia da desinforma√ß√£o¬Ē que tem sido utilizada por novos movimentos pol√≠ticos e que se vale intensamente de aplica√ß√Ķes de internet como o WhatsApp em raz√£o de seu efeito em rede e baixo custo operacional.

O WhatsApp foi utilizado como mecanismo de "hackeamento das aten√ß√Ķes¬Ē e que sua arquitetura levou a consequ√™ncias t√≥xicas - Rafael Zanatta

Nos EUA, h√° dois debates importantes sobre o tema e que ajudam a elucidar nossos problemas. Um √© sobre o "armamento das redes sociais¬Ē. No livro Weaponization of Social Media, Peter Singer e Emerson Brookings explicam como Donald Trump emulou t√°ticas do ISIS (Islamic State) no uso estrat√©gico do Twitter e das redes sociais para disseminar not√≠cias de seu interesse, promover discursos inflamat√≥rios e conquistar mais seguidores por meio de uma radicaliza√ß√£o discursiva, que busca "hackear nossa aten√ß√£o¬Ē. Jair Bolsonaro, assessorado por Steve Bannon, faz uso das mesmas t√°ticas e busca o mesmo caminho. Ele entendeu bem o poder das redes e como ele pode dominar nossa aten√ß√£o.

Um segundo debate, tamb√©m interessante, √© sobre a "infraestrutura de propaganda em rede¬Ē , objeto de estudos de Yochai Benkler e pesquisadores de Harvard. O que eles mostram √© que, para al√©m do uso do WhatsApp e do Facebook, h√° uma organiza√ß√£o econ√īmica por tr√°s que busca mecanismos de coordena√ß√£o de dissemina√ß√£o de not√≠cias e de "viraliza√ß√£o de conte√ļdo¬Ē, muitas vezes com cria√ß√£o de mensagens fraudulentas. H√° um empreendedorismo muito din√Ęmico nisso tudo ¬Ė como notado por pesquisadores do InternetLab no Brasil, ao observar que Jair Bolsonaro contou com uma massa espont√Ęnea de "repassadores de conte√ļdo¬Ē, misturando trabalho pago com volunt√°rio ¬Ė , que se beneficia de um modo de atua√ß√£o da grande m√≠dia que √© considerado como fracassado e n√£o confi√°vel pela popula√ß√£o conectada √† internet. √Č cr√īnico o problema de confiabilidade de empresas tradicionais do jornalismo. Ainda faltam an√°lises em profundidade do caso brasileiro, mas √© interessante observar que o meio de comunica√ß√£o (WhatsApp) √© somente uma pe√ßa nesse jogo complexo. Os processos de desinforma√ß√£o precisam ser estudados em sua organiza√ß√£o econ√īmica (as empresas que se dedicam a explorar a organiza√ß√£o de grupos e a cria√ß√£o de conte√ļdo) e nessa infraestrutura de cria√ß√£o de conte√ļdo, que se vale de uma esp√©cie de "propaganda feedback loop¬Ē de baixo custo (a mesma mensagem falsa sendo replicada em canais de YouTube, p√°ginas e contas de Facebook e Instagram). Nos EUA, ve√≠culos radicais como Breitbart e YouTubers como Alex Jones [8] tiveram papel central. No Brasil, essas pesquisas est√£o em andamento e nos falta clareza sobre quem foi decisivo nas elei√ß√Ķes.

Vale lembrar que, h√° quase um ano, est√°vamos discutindo a import√Ęncia do WhatsApp para a sociedade e para a economia brasileira no Supremo Tribunal Federal [9]. Defendemos, na sociedade civil, o direito √† criptografia e a import√Ęncia de evitar decis√Ķes de bloqueio da aplica√ß√£o. O aprendizado dessas elei√ß√Ķes √© que o WhatsApp foi utilizado como mecanismo de "hackeamento das aten√ß√Ķes¬Ē e que sua arquitetura levou a consequ√™ncias t√≥xicas, especialmente em um contexto onde a maioria da popula√ß√£o se conecta √† internet por meio de planos pr√©-pagos e com WhatsApp gratuito. Isso n√£o significa, no entanto, que devemos abandonar a criptografia ponta a ponta e os direitos assegurados no Marco Civil da Internet.

IHU On-Line ¬Ė Quais os desafios para conceber sistemas de regula√ß√£o de m√≠dias sociais, especialmente o WhatsApp, que assegurem a liberdade democr√°tica e n√£o se caia em formas veladas de censura?

Rafael A. F. Zanatta ¬Ė √Č impratic√°vel e indesej√°vel criar modelos de controle pr√©vio de conte√ļdo. N√£o se pode, tamb√©m, cair na armadilha de querer criar um mecanismo √°gil de "remo√ß√£o por notifica√ß√£o¬Ē, ou seja, a ideia de que o Facebook (controlador do WhatsApp) pode ser notificado para remover um conte√ļdo, ap√≥s uma "Comiss√£o das Fake News¬Ē determinar o que √© verdade ou mentira.

Segundo o Datafolha, 44% dos brasileiros t√™m usado o WhatsApp para acessar not√≠cias e informa√ß√Ķes pol√≠ticas.  56% das imagens compartilhadas s√£o falsas, tiradas do contexto ou sem apoio nos fatos. Apenas 8% delas s√£o verdadeiras - Rafael Zanatta

Hoje h√°, pelo menos, tr√™s modelos regulat√≥rios em fermenta√ß√£o, mas nenhum deles com consist√™ncia demonstrada. O primeiro √© centrado na ideia de que empresas de tecnologia precisam criar ferramentas de "controle pelos pares¬Ē, permitindo que usu√°rios possam sinalizar, por um clique, um conte√ļdo t√≥xico. A Fran√ßa tem discutido esse modelo: a partir de um n√ļmero grande de "sinaliza√ß√Ķes¬Ē, um "Ombudsman da Internet¬Ē seria acionado para dialogar com a empresa e verificar o que pode ser feito para diminuir o impacto dessas publica√ß√Ķes.

O segundo modelo √© de "autorregula√ß√£o regulada¬Ē, ou seja, a sociedade pode determinar alguns princ√≠pios e objetivos regulat√≥rios e as empresas possuem liberdade para implementar tais objetivos da forma que entenderem mais razo√°vel. Por exemplo, a sociedade alem√£ pode determinar que √© inadmiss√≠vel a produ√ß√£o de conte√ļdos difamat√≥rios a imigrantes. Empresas como Twitter e Facebook podem criar suas pr√≥prias m√©tricas e padr√Ķes de an√°lises de metadados para remo√ß√£o de contas automatizadas (bots), diminuindo o impacto de contas que se dediquem a esse fim.

O terceiro modelo √© de "regula√ß√£o por arquitetura¬Ē. A √ćndia, por exemplo, sofreu com um problema de linchamentos e conflitos induzidos por not√≠cias falsas no WhatsApp. Uma das formas adotadas, negociada com o WhatsApp, foi a restri√ß√£o do n√ļmero de usu√°rios em grupos e a restri√ß√£o na capacidade de uma pessoa repassar a mesma mensagem automaticamente. Essa foi a abordagem advogada por Pablo Ortellado [10], Fabr√≠cio Benevenuto [11] e Cristina Tard√°guila [12] em artigo de opini√£o no New York Times[13]. Eles defenderam tal abordagem com base em pesquisas com resultados alarmantes. Segundo o Datafolha, 44% dos brasileiros t√™m usado o WhatsApp para acessar not√≠cias e informa√ß√Ķes pol√≠ticas. Nessa din√Ęmica do WhatsApp para uso pol√≠tico, 56% das imagens compartilhadas s√£o falsas, tiradas do contexto ou sem apoio nos fatos. Apenas 8% delas s√£o verdadeiras.

Atualmente, nenhum projeto de lei no Brasil caminha em uma dessas dire√ß√Ķes. O que tem sido proposto, at√© o momento, s√£o pequenas reformas no C√≥digo Eleitoral para tipifica√ß√£o do crime de "repasse de not√≠cias falsas¬Ē[14] em per√≠odo eleitoral.

IHU On-Line ¬Ė A regula√ß√£o de mensagens trocadas por aplicativos e redes sociais √© um desafio em todo o mundo. Que estrat√©gias adotadas em outros pa√≠ses o senhor destacaria? E qual a viabilidade da implanta√ß√£o dessas medidas no Brasil?

Rafael A. F. Zanatta ¬Ė Como disse acima, h√° diferentes modelos regulat√≥rios em fermenta√ß√£o. Nenhum deles se mostrou plenamente vi√°vel. No entanto, √© preciso destacar elementos para a discuss√£o brasileira.

Primeiro, √© que n√£o se pode fazer uma regula√ß√£o apenas para uma empresa. Qualquer tipo de discuss√£o regulat√≥ria sobre "aplicativos de mensagens privadas¬Ē precisa ter uma abrang√™ncia "setorial¬Ē, por assim dizer. Regras de arquitetura de grupos ou regras sobre pontos de contato (Ombudsman) precisariam ser aplicados para todas as aplica√ß√Ķes relevantes, como WhatsApp, Telegram, Signal e outros que se enquadrem em um conceito espec√≠fico. A√≠ entra um problema que √© o car√°ter global dessas aplica√ß√Ķes e a aus√™ncia de representantes em territ√≥rio nacional, o que fragiliza sua efetividade.

Por tal raz√£o, organiza√ß√Ķes como Instituto de Defesa do Consumidor - Idec e outras defendem que o principal gargalo est√° nas regras frouxas sobre uso de dados pessoais. Por exemplo, a den√ļncia feita pela Folha de S. Paulo em outubro revelou que empresas de "disparo autom√°tico de mensagens¬Ē se valem de grandes bases de telefones celulares, obtidas de forma il√≠cita. H√° todo um mercado de compra e revenda de dados pessoais, incluindo n√ļmeros de WhatsApp. Caso houvesse uma cultura de prote√ß√£o de dados pessoais forte no Brasil [15] e, principalmente, uma Autoridade de Prote√ß√£o de Dados Pessoais [16], ter√≠amos condi√ß√Ķes de avan√ßar na regula√ß√£o desses mercados. E √© isso que est√° na raiz dessa infraestrutura de propaganda em rede: o uso, muitas vezes ilegal, de dados pessoais.

IHU On-Line ¬Ė Como observa as a√ß√Ķes adotadas pelos tribunais eleitorais a fim de estancar a circula√ß√£o de not√≠cias falsas via WhatsApp ao longo da campanha eleitoral de 2018? A pr√≥pria empresa WhatsApp tamb√©m adotou algumas estrat√©gias. Qual √© a efic√°cia do ponto de vista legal e o quanto ainda pode ser feito?

Rafael A. F. Zanatta ¬Ė As a√ß√Ķes do Tribunal Superior Eleitoral foram t√≠midas e o Conselho Consultivo de Elei√ß√Ķes e Internet gastou muito tempo conjecturando a possibilidade de criar mecanismos de remo√ß√£o autom√°tica de conte√ļdo.

A empresa WhatsApp fez muito pouco e criou algumas campanhas educacionais, em parceria com organiza√ß√Ķes civis brasileiras. N√£o se deram nem ao trabalho de criar uma esp√©cie de "alerta¬Ē na tela inicial do WhatsApp, informando as pessoas que h√° alt√≠ssima circula√ß√£o de imagens falsas e conte√ļdos que podem distorcer a percep√ß√£o pol√≠tica em um per√≠odo eleitoral. Um amigo, programador, me ligou perguntando se n√£o seria poss√≠vel cobrar um "feature¬Ē que funcionasse quase como um aviso de tubar√£o na praia. Ou seja, simplesmente avisar as pessoas que h√° "perigo¬Ē e que h√° "conte√ļdos t√≥xicos¬Ē circulando.

Outra coisa que foi muito preocupante foi a incapacidade do Tribunal Superior Eleitoral de olhar para o problema do zero-rating (uso gratuito do WhatsApp em raz√£o de contratos com as principais operadoras de telecomunica√ß√Ķes do pa√≠s). Teria sido minimamente razo√°vel que o TSE tivesse colocado uma obriga√ß√£o de que conte√ļdos de ag√™ncias de checagem e de jornalismo fossem considerados como "servi√ßos de emerg√™ncia¬Ē em raz√£o da alta dissemina√ß√£o de not√≠cias falsas. O pr√≥prio Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) abre essa possibilidade, com a exce√ß√£o do artigo 9¬ļ, II [17].

Todas essas ideias, no entanto, surgiram de √ļltima hora, quando o problema da desinforma√ß√£o se mostrou concreto, em outubro de 2018. Infelizmente, todos n√≥s ¬Ė ONGs, centros de pesquisa, empresas, representantes do poder p√ļblico ¬Ė n√£o conseguimos antever a real dimens√£o dos problemas. Em agosto de 2018 realizamos um grande evento no Minist√©rio P√ļblico Federal chamado "Elei√ß√Ķes, Direitos e Internet¬Ē e poucas ideias concretas surgiram sobre como resolver o problema das not√≠cias falsas.

IHU On-Line ¬Ė A regula√ß√£o acerca da circula√ß√£o de conte√ļdo no WhatsApp deve ser distinta de outras redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram? Por qu√™?

Rafael A. F. Zanatta ¬Ė Eu n√£o tenho uma posi√ß√£o espec√≠fica e concreta sobre a regula√ß√£o do WhatsApp. Como disse anteriormente, acho juridicamente falho olhar somente para uma empresa. O desafio regulat√≥rio est√° muito mais nessa "economia pol√≠tica da desinforma√ß√£o¬Ē, na regula√ß√£o desses atores econ√īmicos que desenvolvem "solu√ß√Ķes¬Ē e "produtos de gest√£o de grupos¬Ē de WhatsApp e que atuam como consultorias de "estrat√©gia digital¬Ē. Acho, tamb√©m, que o problema est√° na legisla√ß√£o eleitoral, que precisa levar a s√©rio a tarefa de obrigar o detalhamento de quais os servi√ßos prestados por consultorias de "estrat√©gia digital¬Ē e quais as tecnologias utilizadas por essas consultorias para realiza√ß√£o de campanha.

O debate n√£o est√° na regula√ß√£o do conte√ļdo do WhatsApp ou do Instagram, mas sim nas regras do jogo em per√≠odos eleitorais - Rafael Zanatta

N√≥s temos um problema concreto para lidar, que √© o campo do "direito digital eleitoral¬Ē ¬Ė como tem sido chamado por juristas como Diogo Rais [18] e Francisco Brito Cruz [19], com quem tenho um di√°logo intenso. Nesse sentido, o debate n√£o est√° na regula√ß√£o do conte√ļdo do WhatsApp ou do Instagram, mas sim nas regras do jogo em per√≠odos eleitorais. Hoje, o mercado de "consultoria tecnol√≥gica¬Ē e "estrat√©gia digital¬Ē de campanhas est√° totalmente desregulado. √Č preciso, antes de tudo, ter as informa√ß√Ķes b√°sicas sobre quem opera nesse mercado, quais os diferentes tipos de produtos e quais as ferramentas tecnol√≥gicas implementadas. Se n√≥s come√ßarmos por a√≠, vamos descobrir muito mais coisas, incluindo o uso e compartilhamento ilegal de dados pessoais, o que passa a ser viola√ß√£o de lei federal, em raz√£o da Lei 13.709/2018 [20].

IHU On-Line ¬Ė Ainda pouco tempo antes de o processo eleitoral iniciar, o WhatsApp chegou a ficar fora do ar no Brasil por determina√ß√Ķes judiciais. Como analisa esses casos, quais os limites e as possibilidades nessa estrat√©gia de controle sobre a plataforma?

Rafael A. F. Zanatta ¬Ė Em 2017, tive a oportunidade de fazer uma sustenta√ß√£o oral no Supremo Tribunal Federal em raz√£o da discuss√£o sobre constitucionalidade do Marco Civil da Internet e das decis√Ķes de suspens√£o do WhatsApp. Nossa posi√ß√£o √© a seguinte: Os artigos 11 e 12 do Marco Civil, que falam da hip√≥tese de suspens√£o de aplica√ß√Ķes de Internet, servem para proteger os cidad√£os quando sua privacidade √© violada. Ou seja, essa regra serve para "punir¬Ē uma empresa que est√° coletando e processando dados pessoais de forma ilegal. Por exemplo, seria leg√≠timo tirar do ar um aplicativo que mostrasse todos os dados pessoais de uma pessoa (telefone, endere√ßo, e-mail) e se a pessoa est√° ou n√£o em sites de "dating¬Ē (Tinder), se a pessoa n√£o tivesse dado consentimento para esse tipo de exposi√ß√£o. Isso √© uma viola√ß√£o do direito √† prote√ß√£o de dados pessoais que deve desencadear os artigos 11 e 12.

N√£o precisamos colocar todo mundo em situa√ß√£o de risco em troca do acesso √†s comunica√ß√Ķes de um pequeno grupo de criminosos - Rafael Zanatta

N√£o √© o caso do WhatsApp. Ele foi "punido¬Ē por utilizar criptografia ponta a ponta e por n√£o entregar o conte√ļdo de mensagens de usu√°rios investigados pela pol√≠cia. Isso √© absolutamente desproporcional. Diante de uma inviabilidade t√©cnica ¬Ė a implementa√ß√£o de um protocolo de criptografia que de fato impede o acesso ao conte√ļdo das mensagens ¬Ė, uma decis√£o do Judici√°rio interrompeu as atividades comunicacionais e econ√īmicas de mais de 100 milh√Ķes de pessoas.

Decis√Ķes desse tipo s√£o desproporcionais e violam direitos constitucionais. Houve bastante consenso, na audi√™ncia p√ļblica no STF, sobre a import√Ęncia de se garantir a criptografia ponta a ponta e a possibilidade de autoridades policiais utilizarem metadados (dados de utiliza√ß√£o de aplica√ß√Ķes), GPS e registros de conex√£o para uma efetiva investiga√ß√£o de crime organizado, valendo-se, inclusive, de t√©cnicas avan√ßadas de an√°lise em rede (geoposicionamento de linhas m√≥veis, conex√Ķes entre diferentes n√ļmeros e padr√Ķes de utiliza√ß√£o de aplica√ß√Ķes de Internet). N√£o √© necess√°rio quebrar a criptografia do WhatsApp para avan√ßar em investiga√ß√Ķes desse tipo. N√£o precisamos colocar todo mundo em situa√ß√£o de risco em troca do acesso √†s comunica√ß√Ķes de um pequeno grupo de criminosos.

IHU On-Line ¬Ė A Pol√≠cia Federal, ainda antes da realiza√ß√£o do segundo turno da elei√ß√£o, atendendo a requisi√ß√£o do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul, indiciou uma mulher por crime eleitoral por ter posto em circula√ß√£o not√≠cias falsas. De acordo com a legisla√ß√£o vigente, quais s√£o as responsabilidades do usu√°rio que p√Ķe em circula√ß√£o mensagens que podem ser consideradas crime? Administradores de grupos de WhatsApp que recebem essas mensagens tamb√©m podem ser responsabilizados?

Rafael A. F. Zanatta ¬Ė A legisla√ß√£o j√° prev√™ situa√ß√Ķes de tipifica√ß√£o de crimes de cal√ļnia, de circula√ß√£o de not√≠cias falsas, de difama√ß√£o e crimes contra honra. Isso √© mais f√°cil de se identificar (e de se responsabilizar) no Facebook, Instagram ou Twitter, pois s√£o aplica√ß√Ķes que geram URLs (Uniform Resource Locator) no padr√£o web. No WhatsApp, a autoria √© mais complexa e depende de uma prova inequ√≠voca de quem "subiu o conte√ļdo¬Ē, como um log de uma conversa ou de um grupo. Cada postagem n√£o gera um identificador √ļnico na web, como √© o caso do Twitter.
WhatsApp passou a ser parte de nossas vidas, criando quase que um mundo paralelo e de "constante excitação" que tende a nos deixar mais polarizados e ansiosos - Rafael Zanatta

O Tribunal de Justi√ßa de S√£o Paulo firmou entendimento de que o administrador do grupo de WhatsApp √© respons√°vel pela "modera√ß√£o c√≠vica¬Ē de uma conversa em grupo. Houve casos em que o administrador foi responsabilizado por "omiss√£o¬Ē, ou seja, por n√£o ter exclu√≠do uma pessoa que estava constantemente promovendo discurso de √≥dio. A tend√™ncia dos Tribunais √©, provavelmente, reconhecer a responsabilidade dos administradores de grupos. Claro que isso fica muito mais dif√≠cil em conte√ļdos que s√£o humor√≠sticos, como piadas, s√°tiras, memes e outros. √Č o eterno debate entre liberdade de express√£o e prote√ß√£o √† honra.

Ainda √© cedo para mensurar uma esp√©cie de "chilling effect¬Ē ou um efeito secund√°rio de censura, onde administradores podem assumir uma poss√≠vel postura mais conservadora do Judici√°rio. O fato √© que o WhatsApp passou a ser parte de nossas vidas, criando quase que um mundo paralelo e de "constante excita√ß√£o¬Ē que tende a nos deixar mais polarizados e ansiosos. H√° cinco anos, n√£o √©ramos assim.



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