Instituto Pensar - Da revolução tecnológica e da tecnologia na revolução

Da revolução tecnológica e da tecnologia na revolução

por Alexandre Weffort, para O Lado Oculto em 24/11/2018


Em face das amea√ßas produzidas por Bolsonaro & Cia, o governo cubano decidiu retirar do territ√≥rio brasileiro o contingente de m√©dicos que ali atuava no √Ęmbito do programa Mais M√©dicos para o Brasil, programa lan√ßado pelo governo de Dilma Rousseff. 

Bolsonaro p√īs em causa a forma√ß√£o dos m√©dicos cubanos, ignorando que Cuba √© o pa√≠s com o maior √≠ndice de qualidade educacional da Am√©rica Latina e Caribe, tem um sistema de sa√ļde universal de qualidade invej√°vel e que colabora solidariamente com diversos pa√≠ses para levar a assist√™ncia m√©dica √†s popula√ß√Ķes mais carenciadas. 

Bolsonaro ignorava, ainda, que Cuba preza e defende a dignidade de seus cidad√£os.

Assim, partindo deste episódio, propomos uma leitura da questão tecnológica na área de comunicação, cruzando as experiências brasileira e cubana.

O propósito de indicado requer a explicitação do nosso ponto de vista, que é também o ponto de partida, no olhar que nos proporcionam duas sociedades que seguem caminhos completamente distintos: no Brasil, deu-se uma guinada à direita, com o discurso neo-fascista do movimento bolsonariano; Cuba, ilha de socialismo num mundo dominado pelo sistema capitalista transnacional e o imperialismo norte-americano, enfrenta os desafios da revolução tecnológica perante o bloqueio norte-americano.

Brasil - na era inform√°tica, a democracia representativa em risco.

O problema da comunica√ß√£o adquire, em cada uma das sociedades que aqui analisamos, uma fei√ß√£o pr√≥pria. No Brasil, o processo eleitoral de outubro deste ano produziu uma altera√ß√£o radical do panorama pol√≠tico ¬Ė ap√≥s uma fase de orienta√ß√£o social-democrata, com Fernando Henrique Cardoso, seguiram-se as experi√™ncias progressistas de Lula da Silva e Dilma Rousseff, passando pelo escorregar submisso de Temer, o qual abriu um caminho ao retrocesso neo-fascista personificado por Bolsonaro. Nesse processo, desde 2013 at√© agora, a comunica√ß√£o foi um instrumento de poder determinante (seja atrav√©s dos grandes media hegem√īnicos, seja das redes sociais em ambiente virtual).

O 'caso Bolsonaro' notabilizou o papel do WhatsApp como distribuidor de 'fake news'. As estratégias de marketing dirigido, tanto do marketing comercial como do marketing religioso, combinaram-se numa poderosa máquina de campanha política, montada com recursos aparentemente comuns: qualquer usuário pode criar contas pessoais nas diversas plataformas existentes (WhatsApp, Instagram, Facebook, Twitter, LinkedIn, etc.) e, por via dessas contas, relacionar-se em grupos virtuais. Esses grupos são, por sua vez, interligados em rede (do Blog ou site para contas do Facebook para o WhatsApp, por exemplo).

No processo de promo√ß√£o da candidatura de Bolsonaro, como noticiou a revista Veja, foram criados diversos grupos, coerentemente estruturados √† escala nacional (cobrindo toda a estrutura federal brasileira), com variados n√≠veis de participa√ß√£o, com vista √† dissemina√ß√£o de 'fake news'. 

Segundo o blog noticioso 'F√≥rum', citando o jornal El Pa√≠s, uma rede desse √Ęmbito √© dirigida desde Portugal, por dois indiv√≠duos de origem brasileira (um deles intitulando-se "empreendedor" ¬Ė uma categoria lan√ßada e promovida pelo ex-ministro, ex-licenciado, Miguel Relvas, articulador pol√≠tico do governo PSD de Passos Coelho); aquele "empreendedor" segue eficazmente a cartilha de Steve Bannon.

O populismo da direita radical na era global - o neo-fascismo em rede

A estrat√©gia populista de extrema-direita fixou-se j√° na It√°lia. Bannon, tendo estado ligado √† elei√ß√£o de Donald Trump nos EUA e, como consultor, √† de Bolsonaro no Brasil, pretende agora fixar em Bruxelas a sede da sua funda√ß√£o ¬Ė The Movement ¬Ė destinada a financiar os partidos de extrema-direita. 

Steve Bannon pretende lan√ßar ¬ęa sua cruzada pelo crescimento da influ√™ncia da extrema-direita no ambiente pol√≠tico da Uni√£o Europeia (...) Segundo a imprensa italiana, Bannon tem um novo ¬Ďtemplo¬í a partir do qual quer espalhar a sua ¬Ďpalavra¬í: a Cartuxa de Trisulti (Collepardo), um mosteiro constru√≠do em 1204 (...) O monumento religioso vai acolher uma esp√©cie de universidade concebida pelo l√≠der dos c√≠rculos ultraconservadores do Vaticano, Benjamin Harnwell, que pretende fornecer apoio ideol√≥gico e religioso a uma estrat√©gia de desenvolvimento do extremismo de direita¬Ľ.

N√£o espanta, assim, ver surgir em Portugal uma propaganda da extrema-direita portuguesa congratulando-se pela a vit√≥ria eleitoral de Bolsonaro. O movimento nacionalista lusitano cola-se assim aos slogans disseminados pelas redes sociais do movimento bolsonariano, pretendendo uma replica√ß√£o dessa mesma din√Ęmica em Portugal e seguindo caminhos semelhantes de instiga√ß√£o da opini√£o p√ļblica.

O estabelecimento da internet como terreno de campanha eleitoral, e das redes sociais virtuais como instrumento de comunica√ß√£o com o eleitorado, criou um simulacro de movimento real ¬Ė um movimento pol√≠tico sustentado pela impessoalidade dos atores, transfigurados em avatares ¬Ė onde se exprimem e replicam mensagens ideol√≥gicas criadas com tra√ßo grosseiro, apelando sistematicamente √† viol√™ncia e √† opress√£o dos opositores, mensagens de diaboliza√ß√£o.

O jogo de desinforma√ß√£o e manipula√ß√£o no terreno virtual foi acompanhado com o da mesma manipula√ß√£o no terreno real, nas rela√ß√Ķes sociais mediadas por estruturas religiosas, nomeadamente, pelas igrejas evang√©licas e do movimento pentecostal. A articula√ß√£o entre ativistas mais radicais ¬Ė os bolsonarianos ¬Ė e as igrejas pentecostais √© contradit√≥ria (como resulta sempre o discurso da viol√™ncia social na boca do oficiante de qualquer liturgia). Como acontece no mundo das rela√ß√Ķes sociais reais, as igrejas cumprem uma fun√ß√£o contradit√≥ria, de amparo aos necessitados e de perpetua√ß√£o das condi√ß√Ķes de domina√ß√£o em que aqueles se encontram submetidos.

Vemos crescer a import√Ęncia pol√≠tica do movimento pentecostal, assim como a sua implanta√ß√£o a n√≠vel demogr√°fico no Brasil (e noutros pa√≠ses, como Portugal, Angola, Mo√ßambique, Zambia), tendo como plataforma girat√≥ria o territ√≥rio brasileiro e as seitas que dele disseminam por via do processo migrat√≥rio.

Lutas sociais - o retorno ao trabalho de base

No s√©c. 20, no entorno do Conc√≠lio Vaticano II, a Igreja Cat√≥lica abriu-se a uma interven√ß√£o social militante de base. Nesse movimento surgido numa era tecnol√≥gica anterior √† internet e √† comunica√ß√£o virtual propiciada pelas novas tecnologias da comunica√ß√£o, vimos surgir a Teologia da Liberta√ß√£o, o relevante papel desempenhado pela CNBB (Confer√™ncia Nacional dos Bispos Brasileiros) na defesa dos valores c√≠vicos de uma sociedade democr√°tica e o aparecimento do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Todas estas estruturas progressistas e as din√Ęmicas de transforma√ß√£o social que preconizam t√™m no trabalho de base a sua estrat√©gia comunicacional priorit√°ria.

O MST ¬Ė define-se e actua como movimento social campon√™s ¬Ė √©, das organiza√ß√Ķes c√≠vicas brasileiras, aquela que, de forma mais estruturada e longeva, criou ferramentas eficazes para o trabalho social. O MST surgiu na d√©cada de 1980, apoiado pela CPT (Comiss√£o Pastoral da Terra, √≥rg√£o da CNBB). A sua estrutura dissemina-se por praticamente todo o Brasil, por meio dos assentamentos rurais, complementada com uma estrat√©gia formativa, em boa verdade, um sistema de escolariza√ß√£o pr√≥prio, liberto das amarras ideol√≥gicas impostas, nesse plano da educa√ß√£o, pela l√≥gica da sociedade capitalista (na imagem, cartaz produzido pela Escola Nacional Florestan Fernandes, fundada pelo MST para a forma√ß√£o de professores para a rede de escolas criadas nos assentamentos e acampamentos).

Movimento social que, a par do seu projecto espec√≠fico de reforma agr√°ria, desempenhou um papel relevante na mobiliza√ß√£o popular em defesa da democracia e da consigna ¬ęLula Livre¬Ľ, o MST √© muitas vezes visado na ret√≥rica fascizante bolsonariana, que busca a sua criminaliza√ß√£o (propondo a equipara√ß√£o do MST a organiza√ß√Ķes terroristas). Nesta fase concreta do processo hist√≥rico brasileiro o seu dirigente de maior visibilidade, Jo√£o Pedro St√©dile, indica: o caminho √© 'retomar o trabalho de base'.

Na circunst√Ęncia em que, a n√≠vel pol√≠tico, se verifica um enorme retrocesso (os filhotes da ditadura, saudosos de um passado que sequer viveram, j√° falam em vagas massivas de pris√Ķes ¬Ė dizia Eduardo Bolsonaro: "se for necess√°rio prender 100 mil, qual o problema?"), o caminho de base √©, nas palavras de St√©dile, ¬ęa din√Ęmica da luta de classes que altera a correla√ß√£o de for√ßas, que vai resolver os problemas do povo (...) Ficou claro durante esta campanha: temos de retomar o trabalho de base (...) Temos de ter claro que o que altera a correla√ß√£o de for√ßas: n√£o s√£o discursos, n√£o s√£o mensagens no WhatsApp. O que altera a correla√ß√£o de for√ßas e resolve os problemas concretos da popula√ß√£o √© organizar a classe trabalhadora e a popula√ß√£o para travar lutas de massas e resolver os seus problemas¬Ľ.

Aquele retorno √†s bases, assumido pelo dirigente de um movimento social, coloca-se tamb√©m como caminho indispens√°vel aos partidos pol√≠ticos, numa sociedade que sofreu profundas mudan√ßas ao longo dos √ļltimos 15 anos, com os programas de benef√≠cio social lan√ßados nos governos de Lula da Silva, e que sofreram j√° com a estagna√ß√£o e retrocesso praticados pelo governo de Michel Temer. 

Na quest√£o que nos propomos analisar, relacionadas com as tecnologias da informa√ß√£o, observamos a seguinte contradi√ß√£o: foram milh√Ķes de eleitores cativados pelo WhatsApp, ou seja, por via do acesso a um 'gadget' inform√°tico (smartphone, tablet, etc.), num pa√≠s que regista hoje o n√ļmero assombroso de 67 milh√Ķes de inadimplentes (no caso, de pessoas com d√≠vidas ao cr√©dito). E, uma das raz√Ķes para isso √© a campanha em roda do consumo desses produtos, muitas vezes porque as marcas principais praticam uma estrat√©gia de obsolesc√™ncia programada dos equipamentos que comercializam.

Cuba - as novas tecnologias da comunicação em seis décadas de revolução

O nosso olhar sobre o problema da comunicação em Cuba implica assumir um ponto de vista que se constrói a partir "de fora". As fontes de informação são menos abundantes que em relação ao Brasil e, numa pesquisa pela internet, depressa se apresentam aquelas que dão enfoque à questão vista do 'outro lado', onde é patente a pressão ideológica norte-americana.

A revolução cubana assinala, em janeiro de 2019, 60 anos de História e, também, quase seis décadas sobre o início de bloqueio imposto a Cuba pelos EUA. O bloqueio (embargo económico, na nomenclatura estado-unidense) é peça fundamental na política de agressão que os EUA movem contra Cuba desde o momento em que a revolução assumiu o caminho socialista (na imagem, Che Guevara e Fidel Castro).

Cingindo-nos √† quest√£o da comunica√ß√£o, devemos considerar o papel da ind√ļstria inform√°tica na promo√ß√£o do consumo de bens e servi√ßos de comunica√ß√£o, criando produtos, h√°bitos e p√ļblicos consumidores. E, como parecer√° evidente, inferimos a deficiente condi√ß√£o do material inform√°tico normalmente acess√≠vel √† sociedade cubana como condi√ß√£o imposta tamb√©m pelas pol√≠ticas de bloqueio.

Campanhas de desinformação e intoxicação

Nestes tempos de globalização cultural, onde a tecnologia da comunicação desempenha um papel essencial, o ponto de vista comparado surge como quase óbvio. São enfatizadas as dificuldades de comunicação com o exterior, os comportamentos de dependência próxima à adição, generalizando à sociedade cubana a experiência reportada sobre casos concretos. A imagem a seguir reproduzida foi extraída de um site produzido nos EUA, que apresenta a edição on-line da revista Wired, dedicada às tecnologias emergentes. Assume como patrono o teórico Marshall McLuhan.

O texto ilustra o prisma ideol√≥gico de quem o redige, no que refere ao desprezo que nutre pelo modo como a sociedade cubana se organiza, segundo crit√©rios socialistas forjados em seis d√©cadas de revolu√ß√£o. Coloca √† vista um problema que √© do mundo globalizado: o papel aditivo das novas tecnologias, criador de depend√™ncias m√ļltiplas j√° noticiadas ao n√≠vel cl√≠nico e social. Todavia, a imagem √© interpretada segundo par√Ęmetros do capitalismo, vaticinando uma frustra√ß√£o iminente:

"Sentado na deslumbrante e bela ru√≠na de Havana, cercado por pedras em decomposi√ß√£o e ferro laminado em tons pastel de Detroit, ignorando tudo para arrastar seus dados do Facebook, como um viciado em coca√≠na lambendo o espelho - o que √©, √Č claro que um usu√°rio depravado de coca√≠na tenta dar um tiro. E ele vai mover o cursor sobre o mesmo conte√ļdo que ele visitou 15 minutos atr√°s, fingindo que ele poderia ter se atualizado e que ele poderia fornecer seu c√©rebro com a inje√ß√£o de dopamina que ele exige. No entanto, n√£o atualiza. N√£o ser√° atualizado"

A manipula√ß√£o ideol√≥gica √© not√≥ria: procura retratar o estado an√≠mico da juventude cubana de forma irremediavelmente negativa. Louvadas, √† maneira saudosista e rom√Ęntica, as "ru√≠nas¬Ē de La Havana, a ela colam a imagem do "depravado cocain√≥mano¬Ē, com que procuram subtilmente estigmatizar a imagem da sociedade cubana. 

A marca da sociedade norte-americana est√° presente no julgamento irreal da realidade vivida em Cuba. O interesse comunicacional √© focado sobretudo no Facebook e na janela de contacto que este abre para o mundo global. Por outro lado, s√£o enfaticamente noticiadas formas alternativas de uso dos equipamentos de comunica√ß√£o pessoal, atrav√©s da cria√ß√£o de redes de contacto directo, seja pelo uso da rela√ß√£o directa via r√°dio entre aparelhos, seja pela cria√ß√£o de modos de circula√ß√£o complementar de informa√ß√£o em suporte f√≠sico (disco r√≠gido ou outro, trazidos do exterior). 

A sociedade cubana √© apresentada, no que refere √† tecnologia da comunica√ß√£o, como obsoleta e em conflito vital. O capitalismo norte-americano cobra assim, na mensagem ideol√≥gica, a consequ√™ncia do bloqueio que imp√īs a Cuba. E, se atendermos apenas aos par√Ęmetros capitalistas e aos indicadores cab√≠veis numa economia de mercado, tenderemos a considerar aquela asser√ß√£o como plaus√≠vel. Todavia, manifesta-se no texto um deliberado desconhecimento de aspectos essenciais da sociedade cubana contempor√Ęnea: da sua cultura revolucion√°ria e do modo de vida socialista.

A questão tecnológica em Cuba

Ao empreender a reda√ß√£o deste texto, iniciado num equipamento razoavelmente atualizado (um tablet e uma vers√£o recente do seu sistema operativo), procuramos tamb√©m uma abordagem de √Ęmbito fenomenol√≥gico: recuperamos um antigo computador port√°til, desenhado para o sistema operativo Windows XP, e instalamos nele a vers√£o cubana do sistema operativo de base Linux ¬Ė o Nova, na sua sexta edi√ß√£o. 

Contrariamente ao que √© indicado, por exemplo, na wikipedia, que afirma ter a sexta edi√ß√£o deste sistema operativo de base Linux ¬Ė NOVA, apoiado pelo Estado cubano ¬Ė sido cancelada e tornada inacess√≠vel, o facto √© que a ele tivemos acesso, foi instalado com facilidade funcionando de forma bastante eficaz, com os aplicativos mais comuns e de distribui√ß√£o livre.

Desenvolvido e distribu√≠do pela Universidade Universidade das Ci√™ncias Inform√°ticas de La Havana, ¬ęNova¬Ľ √© assumidamente "um sistema operativo feito por CUBANOS e para CUBANOS, alinhado √†s pol√≠ticas que orientam a informatiza√ß√£o nacional e optimizado para as condi√ß√Ķes tecnol√≥gicas do Pa√≠s¬Ē, tendo como crit√©rio a constru√ß√£o de um processo sustentado de soberania tecnol√≥gica.

O recurso a software livre como pol√≠tica de informatiza√ß√£o a n√≠vel nacional e a constru√ß√£o de um processo que tem por finalidade dotar a sociedade cubana dos recursos tecnol√≥gicos considerando a realidade do pa√≠s e assumindo como crit√©rio essencial a defesa da soberania tecnol√≥gica: essa √© uma das facetas do processo revolucion√°rio cubano que importa reconhecer ao avaliar o grau de atualidade ou de obsolesc√™ncia dos recursos inform√°ticos, faceta que vai conjugar-se com outra pol√≠tica fundamental ¬Ė por sua vez, resultante indireta das limita√ß√Ķes impostas pelo bloqueio norte-americano ¬Ė que se define pelo sistem√°tico re-aproveitamento dos equipamentos tecnol√≥gicos.

Racionaliza√ß√£o tecnol√≥gica socialista - um projeto sustent√°vel

Nos primeiros anos da d√©cada de 1960, o processo revolucion√°rio cubano teve de enfrentar a agress√£o norte-americana (por exemplo, na tentativa de invas√£o e subsequente derrota dos invasores na Ba√≠a dos Porcos, ou nos mais de 600 atentados falhados contra Fidel Castro e, continuadamente, por via do bloqueio econ√īmico). Um dos passos da estrat√©gia revolucion√°ria cubana foi dado pelo 'Movimento de Inovadores e Racionalizadores de Cuba'. Surgido pela iniciativa de Ernesto Che Guevara e L√°zaro Pe√Īa, assumiu em 1965 a forma org√Ęnica de uma 'Associa√ß√£o Nacional de Inventores e Inovadores', funcionando junto ao movimento sindical. 

Ao n√≠vel institucional mais elevado, encontraremos a quest√£o que nos ocupa consagrada no SCIT (Sistema de Ci√™ncia e Inova√ß√£o Tecnol√≥gica) em Cuba, com vista a um desenvolvimento integrado tanto ao n√≠vel da g√™nese como da aplica√ß√£o de todos os conhecimentos cient√≠ficos requeridos para um desenvolvimento multiforme da sociedade, com o objectivo de contribuir para a preserva√ß√£o e avan√ßo do projeto social cubano. Neste contexto, a inova√ß√£o √© concebida como ¬ęa transforma√ß√£o de uma ideia em um produto ou processo novo ou melhorado e a sua subsequente utiliza√ß√£o com √™xito nas esferas da produ√ß√£o material ou espiritual da sociedade¬Ľ.

Cuba foi palco da realiza√ß√£o de uma Conven√ß√£o Internacional de Ci√™ncia, Tecnologia e Inova√ß√£o, sob o lema "Inova√ß√£o para o desenvolvimento sustentado¬Ē, evento em que as tecnologias da informa√ß√£o mereceram larga aten√ß√£o. No √Ęmbito acad√™mico cubano, diversos s√£o os trabalho sobre as TIC (Tecnologias da Informa√ß√£o e das Comunica√ß√Ķes). No entanto, al√©m de eventos de envergadura internacional, marca o processo cubano a sua natureza org√Ęnica de base, o seu modo de estrutura√ß√£o participada nos mais variados n√≠veis de organiza√ß√£o social (imagem acima, de uma aula no Instituto Superior Polit√©cnico Jos√© Ant√≥nio Echeverria).

O objectivo de um melhor uso das tecnologias da informa√ß√£o e da comunica√ß√£o √© o t√≠tulo de um artigo publicado no Granma, √≥rg√£o central do PCC (Partido Comunista de Cuba). Nesse artigo refere-se como objectivo capacitar o Estado cubano para um desempenho mais elevado no √Ęmbito da governa√ß√£o eletr√īnica, √°rea em que, segundo a ONU (Organiza√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas), Cuba se encontra no 131¬ļ lugar (num total de 193 pa√≠ses). Os problemas de rede e o custo de opera√ß√£o s√£o, no entanto sentidos de forma crescente pela popula√ß√£o ¬Ė como depois se constata nos coment√°rios (abertamente cr√≠ticos) publicados na mesma edi√ß√£o do jornal.

Tecnologia e comunicação como problema ideológico

Importa equacionar a questão também sob o ponto de vista ideológico, no que diferencia o modo de valoração dos recursos tecnológicos da comunicação num prisma socialista ou capitalista.

A globaliza√ß√£o das comunica√ß√Ķes √© uma realidade. O dirigente hist√≥rico da revolu√ß√£o cubana Fidel Castro dizia, em 1999: ¬ęTrata-se de uma realidade irrevers√≠vel, caracterizada pela crescente inter-rela√ß√£o de todos os pa√≠ses, economias e povos, em virtude dos grandes avan√ßos cient√≠fico-t√©cnicos que encurtaram as distancias e tornaram realidade as comunica√ß√Ķes e a transmiss√£o de informa√ß√£o entre pa√≠ses situados em qualquer lugar do planeta¬Ľ.

Em 1987, disse Fidel Castro: ¬ęCreio que o socialismo ser√° muito dif√≠cil de construir plenamente sem a computa√ß√£o, porque dela necessita ainda mais que a sociedade capitalista, e a sociedade capitalista hoje n√£o poderia viver sem a computa√ß√£o¬Ľ. E, em 1966, uma d√©cada antes, Fidel Castro dizia j√°: ¬ęNenhuma revolu√ß√£o social poderia conduzir ao socialismo sem uma revolu√ß√£o t√©cnica, e nenhuma sociedade humana alcan√ßar√° o comunismo sem uma revolu√ß√£o t√©cnica¬Ľ. 

Na, sequ√™ncia, Fidel Castro formula o ideal de sociedade futura: ¬ęUm dia a t√©cnica ser√° de toda a sociedade. E que quer isto dizer? Quer dizer um dia chegar√° a ser poss√≠vel o apotegma marxista, ou a aspira√ß√£o marxista, comunista, de que trabalho manual e trabalho intelectual se combinem (¬Ö) Como? Da √ļnica forma, desta forma que estamos colocando: quando a t√©cnica seja um conhecimento de toda a sociedade¬Ľ.

Fidel Castro coloca a quest√£o em termos claros: ¬ęQuando surgiram, os meios massivos [de comunica√ß√£o] apoderaram-se das mentes e governavam n√£o s√≥ √† base de mentiras, mas de reflexos condicionados. N√£o √© o mesmo uma mentira e um reflexo condicionado. A mentira afeta o conhecimento; o reflexo condicionado afeta a capacidade de pensar¬Ľ. 

O sucesso alcançado pela campanha de desinformação que conduziu à eleição de Bolsonaro no Brasil, com o recurso sistemático às chamadas fake news, enquadram-se nos conceitos de manipulação e condicionamento acima referidos. E vimos como, no momento presente, as forças políticas de esquerda (partidos e movimentos sociais) não foram capazes de contrapor, à campanha de desinformação e condicionamento, antídoto suficientemente eficaz.

Uma das formas de condicionamento mais not√°veis ¬Ė a forma aditiva com que se processa o consumo dos produtos cibern√©ticos ¬Ė assenta na ind√ļstria do entretenimento que domina os processos comunicacionais, por via da dissemina√ß√£o dos artefatos tecnol√≥gicos de comunica√ß√£o (como os smartphones). Sobre a ind√ļstria do entretenimento, Fidel Castro dizia: ¬ęNada mais alienante que muitos dos conte√ļdos da chamada "industria do entretenimento" desenvolvida pelo imperialismo, nos quais crian√ßas e jovens investem infinitas horas sem que, por enquanto, o socialismo tenha criado ant√≠dotos suficientemente eficazes para enfrentar a sua influ√™ncia nociva¬Ľ.

Conclus√Ķes

Na busca de um entendimento, por via de uma leitura cruzada, de realidades t√£o d√≠spares, como s√£o as do Brasil e de Cuba, afloramos quest√Ķes relacionadas com a tecnologia e sua aplica√ß√£o √† esfera da comunica√ß√£o, em tempos de globaliza√ß√£o. 
As palavras de Fidel Castro permitem-nos aferir como a quest√£o da tecnologia e da comunica√ß√£o foi assumida em Cuba, perante os projectos de transforma√ß√£o social iniciados em 1959. E, mostram como a tecnologia e a comunica√ß√£o assumem uma dimens√£o contradit√≥ria quando se coloca a quest√£o das necessidades individuais e colectivas. 

No que refere à tecnologia, Cuba é por vezes apresentada como uma nação estagnada, sem o acesso às novidades que pululam no capitalismo. Como paradigma, o parque automóvel cubano é rotineiramente citado como a imagem de um passado cristalizado. Na imagem da revista Wired, reprodizida a início, a beleza de Havana é colocada em aparente decrepitude: como símbolo de uma sociedade guiada por uma ideologia obsoleta.

As novas tecnologias da comunica√ß√£o, no uso dominante que lhes √© dado no sistema capitalista, s√£o investidas para a cria√ß√£o de uma massa condicionada. A ideia de uma classe ociosa, como apontou Thornstein Veblen em in√≠cios do s√©culo 20, desponta um s√©culo depois por via dos processos virtuais de comunica√ß√£o, sendo essa uma das mais nefastas consequ√™ncias, por exemplo, de plataformas hegem√īnicas como o Facebook (onde milh√Ķes de pessoas ficam rotineiramente presas, na ilus√£o de uma exist√™ncia em comunidade virtual, desligados das rela√ß√Ķes reais e do pr√≥prio sentido de realidade).

Em contraponto, vemos como o processo de globaliza√ß√£o √© marcado pelas novas tecnologias digitais aplicadas √† comunica√ß√£o, processo em que a ind√ļstria inform√°tica desenvolve uma pr√°tica de 'obsolesc√™ncia programada', fazendo propositadamente com que os aparelhos percam capacidades de desempenho, for√ßando a sua substitui√ß√£o desnecess√°ria. 

A pol√≠tica de recupera√ß√£o seguida por Cuba (experimentamos o exemplo do software Nova), definida segundo princ√≠pios de sustentabilidade e soberania tecnol√≥gica, choca frontalmente com aquela l√≥gica ultra-liberal de mercado, de tornar obsoleto o que ainda √© funcional, promovendo o consumismo sempre na mira do lucro. As prioridades seguidas por Cuba em rela√ß√£o √† educa√ß√£o e √† sa√ļde, chocam com a no√ß√£o do que √© priorit√°rio segundo uma l√≥gica capitalista, cada vez mais focada na ind√ļstria do entretenimento.

Podemos colocar da seguinte forma: em Cuba h√° uma excelente rede de cuidados de sa√ļde e um excelente sistema de ensino, gratuito e universal. Por outro lado, Cuba apresenta uma deficiente cobertura de internet (com custos ainda elevados). Em Portugal, por exemplo, o acesso √† sa√ļde √© cada vez mais prec√°rio e caro, o sistema de ensino superior p√ļblico tamb√©m apresenta custos muito elevados; no entanto, em Portugal, grandes empresas multinacionais oferecem acesso √† rede de internet cobrindo todo o territ√≥rio, com pre√ßos acess√≠veis, e amplo acesso a todos os canais Fox ... 

A √ļltima campanha publicit√°ria da distribuidora norte-americana Fox diz assim, em rela√ß√£o a cada protagonista das muitas s√©ries televisivas em cartaz, ¬ę... ele j√° tem uma casa em Portugal, a sua!¬Ľ (de acordo o pensamento de Fidel Castro, trata-se de invas√£o cultural!).

√Č no √Ęmbito da aliena√ß√£o produzida por meios de baixa densidade de conte√ļdo (como s√£o Facebook, WhatsApp, Twitter, Instagram, etc.), que a manipula√ß√£o da consci√™ncia social brasileira pela estrat√©gia bolsonarista se realizou com mais sucesso. √Č onde reside a for√ßa imediata do populismo. Essa possibilidade havia sido antevista (ao diferenciar as categorias dos media em fun√ß√£o da baixa ou alta densidade dos conte√ļdos conte√ļdos que por eles circulam) por Marshall McLuhan, que a revista Wired assume como patrono.

Partindo de uma an√°lise da linguagem publicit√°ria, McLuhan lan√ßou, na d√©cada de 1960, a c√©lebre frase: ¬ęo meio √© a mensagem¬Ľ. Assumida como 'revela√ß√£o' e seu autor como 'vision√°rio', foi recuperada em finais do s√©culo 20, perante o desenvolvimento da ind√ļstria do entretenimento por meio da tecnologia de comunica√ß√£o digital. 

A densidade das reflex√Ķes aprofundadas, sustentadas em an√°lises objectivas da realidade e que preenchem normalmente o discurso pol√≠tico marxista, requerem um outro tempo e uma disponibilidade para a sua assimila√ß√£o (desejavelmente

cr√≠tica). No entanto, os tempos de assimila√ß√£o proporcionados pelas redes virtuais ¬Ė hoje instrumentos dominantes na comunica√ß√£o humana ¬Ė n√£o s√£o favor√°veis a essa maior densidade de conte√ļdo, e imp√Ķem seu estatuto de prioridade. 

As implica√ß√Ķes do fen√īmeno comunicacional massivo ligado ao hedonismo, que surge como tra√ßo da sociedade capitalista contempor√Ęnea (a √©tica protestante e sua liga√ß√£o ao esp√≠rito do capitalismo, tese apresentada por Max Weber em in√≠cios do s√©culo 20, esgotou-se tamb√©m ao n√≠vel das pr√≥prias seitas religiosas), aquelas implica√ß√Ķes n√£o foram suficientemente reconhecidas no √Ęmbito da teoriza√ß√£o marxista. Da√≠ que Fidel Castro tenha sublinhado o papel alienante da ind√ļstria do entretenimento e, em 2008, tenha afirmado que as for√ßas que abra√ßam o ideal socialista n√£o foram ainda capazes de criar ¬ęant√≠dotos suficientemente eficazes para enfrentar a sua influ√™ncia nociva¬Ľ.

 *Alexandre Weffort √© professor, mestre em Ci√™ncia das Religi√Ķes e doutorando em Comunica√ß√£o e Cultura.
Fonte: O Lado Oculto
Obs: O Portal Vermelho preservou o português lusitano da publicação original.
As opini√Ķes aqui expostas n√£o representam necessariamente a opini√£o do Portal Vermelho



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