Instituto Pensar - Reflex√Ķes sobre Transi√ß√£o Ecol√≥gica e Energ√©tica

Reflex√Ķes sobre Transi√ß√£o Ecol√≥gica e Energ√©tica

Brazil desert. Foto: Pixabay

1) O planeta não está em perigo. Mas nós, nossa sociedade, sim.

2) O planeta já conheceu períodos mais inóspitos. Mas nós, não.

3) O planeta √© indiferente √† sorte dos seres vivos que o habitam, pouco lhe importando se h√° condi√ß√Ķes favor√°veis ou inadequadas para a vida prosperar na Terra.

4) Não basta se preocupar apenas com a natureza, mas com a nossa sobrevivência enquanto espécie.

5) Não basta se preocupar com o meio ambiente de maneira geral. Mas conhecer que tipos de danos nossa atividade individual e coletiva de produção e consumo causa ao meio natural, sobretudo distinguir se o dano é local, regional e global, ou se é reversível ou irreversível.

6) O aquecimento global n√£o √© um fen√īmeno espont√Ęneo. Trata-se de transforma√ß√£o forjada pelo nosso modo de produ√ß√£o e consumo.

7) N√£o se trata de algo incerto e n√£o sabido. Mas de fen√īmeno medido diariamente e cujas previs√Ķes de quatro d√©cadas se confirmaram

8- A mudan√ßa clim√°tica n√£o √© um fen√īmeno isolado, √ļnico, mas engendra outros, igualmente graves.

9) A transi√ß√£o energ√©tica n√£o ser√° indolor. Ser√° longa, levar√° dec√™nios, em raz√£o da in√©rcia pr√≥pria aos investimentos consider√°veis j√° realizados em energias f√≥sseis e aos que est√£o por fazer em energias n√£o carb√īnicas.

10) Em torno de 85% da energia prim√°ria total mundial consumida pelo setor prim√°rio, secund√°rio e terci√°rio √© de origem f√≥ssil. As energias f√≥sseis movem a ind√ļstria pesada, a constru√ß√£o, o transporte e a agricultura.

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11) A modernidade √© feita particularmente de cimento, a√ßo e am√īnia: 4,5 bilh√Ķes de toneladas, 1,8 bilh√£o de toneladas e 150 milh√Ķes de toneladas anuais, respectivamente, produzidos gra√ßas √†s energias f√≥sseis.

12) Am√īnia alimenta o mundo. Ferro √© o esqueleto da sociedade. Cimento √© o alicerce da sociedade termo industrial ? material mais usado pela modernidade ap√≥s a √°gua.

13) Dada a tecnologia atual, não será com energias pouco emissoras de GEE (eólica, solar, nuclear) que será possível substituir a atual produção mundial destes três materiais e dos demais.

14) Quase 70% da eletricidade mundial destinada a todos os fins s√£o produzidos em centrais t√©rmicas a carv√£o ou a g√°s natural. Substituir a capacidade mundial instalada de centrais el√©tricas t√©rmicas a carv√£o, da ordem de 2.100 GW, por centrais nucleares, implica construir 2.100 reatores nucleares de 1 GW. Ora, o n√ļmero de centrais nucleares no planeta em funcionamento √© da ordem de 450 reatores. N√£o h√° capacidade industrial para tal tarefa nos prazos necess√°rios.

15) O consumo anual de combust√≠veis f√≥sseis √© 10 bilh√Ķes de toneladas. Ele multiplicou por 60, desde o s√©culo 19; por 16, desde o s√©culo 20. Entre 1970 e 2020, a produ√ß√£o de eletricidade mundial multiplicou por 15. Quase 1 bilh√£o de habitantes no planeta n√£o disp√Ķem de energia el√©trica.

16) Hoje, um habitante do planeta disp√Ķe de 700 vezes mais energia do que um habitante de 1800. Equivalente a 800 litros de petr√≥leo por ano e por pessoa.

17) A modernidade que deu origem √† sociedade termo industrial √© produto de um fen√īmeno f√≠sico: a "domestica√ß√£o? da m√°quina a vapor, conversor energ√©tico n√£o biol√≥gico ? a exemplo dos homin√≠deos ao domesticarem o fogo, h√° 500 mil anos.

18) Homens e mulheres passaram a tirar proveito da enorme quantidade de energia contida em um volume de massa muito reduzido de carvão, petróleo ou gás; ou melhor, da alta densidade de energia encerrada em uma pequena quantidade de matéria sob a forma fóssil.

19) Uma colher de sopa com 15 ml de gasolina cont√©m uma quantidade de energia capaz de deslocar um ve√≠culo SUV de duas toneladas por mais de meio quil√īmetro. E o motor t√©rmico deste ve√≠culo (conversor energ√©tico) transforma em energia mec√Ęnica apenas 20% a 40% da energia qu√≠mica contida na colher de sopa com 15 ml de gasolina.

20) Um litro de petróleo substitui o trabalho de cem homens trabalhando durante 24 horas. A energia fóssil é barata ao comparar o valor de um litro de petróleo com o valor do trabalho de 100 homens durante 24 horas. A energia fóssil substituiu o trabalho humano pelo trabalho das máquinas.

21) Transição de energias fósseis para energias renováveis pouco emissoras de GEE significa reduzir a dependência de materiais fósseis, mas aumentar a de metais diversos.

22) Não ocorreu desacoplamento absoluto do crescimento do PIB com o crescimento do consumo de energia e matérias primas desde a revolução industrial. Historicamente, quando uma variável aumenta a outra também aumenta. Quanto mais cresce o PIB, mais energia é preciso injetar no processo de produção e consumo; e mais GEE são emitidos na atmosfera, em consequência.

23) O IPCC preconiza reduzir pela metade as emiss√Ķes de GEE em 2030. Ora, isto significa reduzir o PIB. Significa retra√ß√£o da quantidade de energia que alimenta as m√°quinas; energia esta medida em watts, joules, Tep, etc. Tamb√©m significa retra√ß√£o em termos f√≠sicos, medida em unidades de energia e n√£o em unidades monet√°rias. A recess√£o econ√īmica √© medida em unidades monet√°rias. Uma √© bem distinta da outra.

24) A Ci√™ncia mostra o que est√° acontecendo. Mas, a solu√ß√£o √† degrada√ß√£o das condi√ß√Ķes de habitabilidade do planeta √© pol√≠tica. Depende de press√£o da sociedade civil organizada.

25) O futuro est√° em nossas m√£os. Mas, n√£o ser√° o prolongamento do presente. Ele ser√° muito diferente. Desafio gigantesco. A solu√ß√£o poss√≠vel face a este desafio gigantesco √© construir uma sociedade fundada na sobriedade, sobriedade compartilhada, democr√°tica, tolerante, plural com equidade. A descobrir, a inventar. 

Por Tom√°s Togni Tarqu√≠nio ? Antrop√≥logo e Etn√≥logo pela Universidade de Paris VII (Diderot); Mestre em Economia Industrial, Institut d?√Čtudes du D√©veloppement de la Sorbonne (IEDES) Universidade de Paris I; entre outras especializa√ß√Ķes acad√™micas.



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