Instituto Pensar - O brasileiro real é Ariano

O brasileiro real é Ariano

por: Fl√°vio Dino 


Escritor, dramaturgo e presidente de honra do PSB, Ariano Suassuna. Foto: PSB

Na semana que passou, o Partido Socialista Brasileiro (PSB) realizou, em Paraty (RJ), o primeiro de uma s√©rie de eventos anuais em raz√£o da comemora√ß√£o dos 100 anos de Ariano Suassuna, este grande e c√©lebre escritor brasileiro, que foi um dos fundadores da nossa agremia√ß√£o socialista, e encerrou sua participa√ß√£o na pol√≠tica brasileira como seu Presidente de Honra. Ariano tinha uma paix√£o: o povo brasileiro. Dedicou sua vida inteira a ser voz da luta por uma sociedade mais justa, igualit√°ria, orgulhosa do Brasil e dos brasileiros.

Paraibano, boa parte de sua viv√™ncia se deu no sert√£o nordestino, que ele costumava chamar de Brasil Real. Mais tarde, em revis√£o √†s suas pr√≥prias teses, percebeu que o termo Brasil Real era extensivo √†s comunidades pobres presentes tamb√©m nos grandes centros urbanos. Para Ariano, o Brasil era um constante embate entre o Brasil Real e o Brasil Oficial. Com humor e elementos da cultura popular nordestina, ele tecia obras com cr√≠ticas sociais incisivas, extremamente identificadas com as doutrinas socialistas crist√£s. "A meu ver, enquanto houver um miser√°vel, um homem com fome, o sonho socialista continua?, disse uma vez. Esse realista esperan√ßoso, em outra oportunidade, pontuou que se inspirava no pensador franc√™s Jacques Maritain, pois, assim como ele, acreditava que o Brasil estava destinado a realizar o mais belo sonho no campo pol√≠tico: realizar um regime em que pela primeira vez estivessem juntas a justi√ßa e a liberdade. Certa feita, em entrevista ao programa Roda Viva, real√ßou que, em raz√£o das injusti√ßas, estava presenciando coisas imperdo√°veis na pol√≠tica brasileira, a exemplo da privatiza√ß√£o de empresas p√ļblicas essenciais √† soberania do pa√≠s e a tentativa de extinguir a SUDENE.

Ariano era um patriota contundente, grande defensor do tecido cultural brasileiro, especialmente o nordestino, e totalmente avesso √† inser√ß√£o de anglicismos em nossa cultura. "N√£o troco o meu oxente pelo ok de ningu√©m!?, repetia sempre. A cultura do nordeste, uma das facetas da express√£o brasileira, e onde tamb√©m surgiram Josu√© Montello, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Raquel de Queiroz e tantos outros, √© rica e singular, resultado de cria√ß√£o popular com os p√©s fincados no ch√£o √°rido e ao mesmo tempo t√£o frut√≠fero. √Č a soma de m√ļsica, teatro, poesia e dan√ßa, cuja maior manifesta√ß√£o s√£o as festas do per√≠odo junino, que agora estamos vivenciando com tanta alegria. √Č essa cultura que nos define e de onde surgem as marcas capazes de apontar um brasileiro em qualquer canto do mundo.

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Forte e altiva, orgulhosa de si e de suas manifesta√ß√Ķes, a cultura nordestina tamb√©m √© alvo de enfrentamento pol√≠tico. Por exemplo, nos dias atuais s√£o constantes os ataques do presidente da Rep√ļblica e de seus asseclas difundindo graves preconceitos regionais, para com o povo nordestino e suas tradi√ß√Ķes. Tempos atr√°s, na tentativa de ofender, Bolsonaro chamou governadores nordestinos de "para√≠bas?, como se fosse ofensa ser da terra de onde sa√≠ram Ariano Suassuna e Celso Furtado. De l√° para c√°, mais termos foram usados para descrever o povo nordestino, como "pau de arara?, "cabe√ßas chatas? e outros que n√£o valem a pena ser relembrados.

Esse mesmo presidente bate contin√™ncia √† bandeira dos Estados Unidos, tenta a todo custo acabar com a Amaz√īnia e os povos que nela vivem, √© adepto de pr√°ticas indecorosas, organiza mil√≠cias para atacar institui√ß√Ķes, ri de brasileiros no leito de morte e segue uma sanha para privatizar empresas p√ļblicas superavit√°rias. Trago esses tristes destaques para comprovar uma afirma√ß√£o: Ariano Suassuna √© uma n√≠tida representa√ß√£o do sentimento anti-bolsonarista. Ele defendeu, a vida inteira, aquilo que Bolsonaro recha√ßa: orgulho aut√™ntico do Brasil e do seu povo, bem como sentimentos de fraternidade, solidariedade, humanismo.

Ariano √© sin√īnimo de resist√™ncia. N√£o deve ser esquecido jamais, pois inspira, todos os dias, o Brasil Real a lutar por dias melhores. Sigamos, nesse ano desafiador para todos n√≥s, os conselhos de Ariano: "Tenho duas armas para lutar contra o desespero, contra a tristeza e at√© contra a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. √Č com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver.?

*Por Fl√°vio Dino, ex-governador do Maranh√£o



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