Instituto Pensar - São João do Brasil

São João do Brasil

Seminário São João do Brasil

Contextualização

O Brasil trabalha com um único grande produto de caráter nacional que é o carnaval durante o verão. Esse produto tem o seu "locus" principal, de maior visibilidade, no Rio de Janeiro, embora ocorra com grande força na Bahia, em Pernambuco, em São Paulo e Amazonas.

Sendo o carnaval a mesma festa, tem características diferentes e é operado turística e culturalmente de forma específica em cada um desses estados. Move uma cadeia de produção significativa: hotéis, receptivos, traslados, passagens, comunicação, vestuário, bebidas, música, trios elétricos, palco, som, iluminação, camarotes com grandes estruturas e variados serviços.

As empresas da economia criativa, as indústrias e o comércio, os governos dos estados e as prefeituras desenvolveram um grande conhecimento e acumularam uma experiência que poderá muito bem ser ampliada, adaptada e aplicada num segundo produto turístico cultural: O São João do Brasil.

Conceito:

São João do Brasil


As festas juninas que embora muito mais fortes no Nordeste, são comemoradas em todo o território nacional.

Essas festas possuem algumas características específicas como amplitude, riqueza cultural e fruição pelas diversas faixas etárias. Enquanto o carnaval é, cada dia mais, uma festa para jovens, o São João atrai além da juventude, os velhos, as crianças e as famílias. O São João acontece de alguma forma em todo o território nacional. Nas grandes festas do Nordeste em cidades grandes como Campina Grande, Caruaru, Mossoró, Aracajú e Salvador. Em cidades médias ou pequenas como Amargosa, Cruz das Almas e Senhor do Bonfim no interior da Bahia.

Mas também, de forma diferenciada, acontecem em grandes cidades brasileiras como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Brasília, onde o clima junino invade as escolas com as quadrilhas, os trajes típicos e a culinária própria. Em São Paulo, Rio e Brasília a força do São João se traduz até nas festas que acontecem no mês de julho, chamada de festas "julinas". Em Brasília uma festa na Ceilândia se intitula Maior São João do Cerrado, levou cerca de meio milhão de pessoas entre 6 e 10 de agosto de 2014, e já está na sua oitava edição.

Também no Amazonas, as festas juninas acontecem em julho embora com as mesmas características do São João, quadrilhas e fogueiras. Na Festa da Fogueira de Lindóia, a fogueira propriamente dita tem altura de 20 metros. E obviamente o Festival de Parintins, a maior festa junina do Norte Brasileiro e uma das maiores do Brasil inclui-se nesta relação.

A força do São João começa a se revelar também em festejos privados ou públicos da classe média dos grandes centros do Sudeste. Exemplo disso é a festa de São João promovida por Gilberto Gil no Rio de Janeiro. Mas também no Centro Municipal de Tradições Nordestinas em São Cristóvão, realizam-se todos os anos importantes festas juninas.

Em São Paulo, além da festa que se realiza em Caçapava ou o seu famoso cortejo de Carros de Boi, ocorrem grandes festas de forró em São Miguel Paulista, a Festa Junina da Portuguesa no SESC Itaquera, a Quermesse da Consolação e as quadrilhas em vários bairros, paróquias e parques da capital paulista. Também nos municípios de Santo André, Mauá, Campinas e São Bernardo comemora-se o São João. Em 2013 foi realizado o primeiro Arraiá de São Paulo no Vale do Anhangabaú com um público de 70 mil pessoas. Em 2014 o II Arraiá de São Paulo aconteceu no Jardim da Luz, em 5 e 6 de julho.

Em Belo Horizonte ocorre também o famoso Arraial de Belô, com um público aproximado de 150 mil pessoas. E na cidade de Santa Luzia, a 18 km de BH, ocorreu em 2014 a primeira edição de uma grande festa chamada de São João de Minas, com grandes bandas do forró moderno.

No Paraná, numa cidade chamada São João realiza-se a maior festa da região com uma visitação de 34.000 pessoas por dia, portanto mais de 100.000 visitantes.

Até na Granja do Torto em Brasília se comemorava o São João, quando Lula era presidente.

Existem, pois, condições objetivas para se fomentar, promover e lançar para o Brasil e para o mundo o São João do Brasil como produto turístico – cultural do inverno brasileiro.

Este seminário propõe-se a examinar as hipóteses de viabilidade sobre este novo produto.

A Dimensão Cultural

Os festejos juninos têm sua origem nas festas pagãs que celebravam o Solstício de Verão (Litha). Como ocorreu com templos e outros rituais, foi incorporado pela Igreja Católica por volta dos séculos V e VI da era cristã.

Atribui-se até a denominação junina não a São João Batista, mas ao culto da deusa Juno mulher de Júpiter.

Essa festa mantém, no entanto, algumas características das suas origens pagãs, posto que está ligada às colheitas e a ideia de fartura.

No Brasil já chegou como festa de São João, no início do ano de 1600, servindo, inclusive, ao trabalho dos jesuítas de catequização dos indígenas que se encantavam com o caráter festivo da nova religião com fogueiras, bandeiras e cantigas.

O São João é, portanto, muito mais antigo que o carnaval e na verdade abrange mais da metade do mês de junho, começando dia 13 com o Santo Antônio, indo até dia 29 com o São Pedro. Em alguns lugares começa em 1º de junho com a Trezena de Santo Antônio, ou com grandes festas como Caruaru ou Campina grande.

O São João tem raízes profundas na cultura popular brasileira

Ao longo dos séculos foi recebendo contribuições diversas, entre elas, a coreografia, as danças das "quadrilhas" originária das "quadrille" e da "contredance", danças de salão francesas. Ainda se ouve dos "marcadores de quadrilha" brasileiros expressões como "anarriê", querendo dizer "en arriere" (para trás).

Sem nenhuma dúvida o São João é a maior festa popular do Brasil, mais enraizada culturalmente e mais rica em diversidade. Vem sofrendo os efeitos da evolução nas suas músicas, na sua indumentária, nas suas coreografias e principalmente nas suas estruturas físicas. Nas cidades nordestinas onde se realizam grandes festas, o famoso arraial em torno da fogueira e do Pau de Sebo, ou do mastro da bandeira, ampliou-se enormemente com grandes palcos, publicidade, bandas midiáticas, músicas modernas que se misturam ao baião, ao xote, ao xaxado, ao forró e às músicas tradicionais.

As grandes arenas mantêm, contudo, um visual tipicamente junino com suas bandeirolas coloridas e sua decoração característica. Cantores e público vestem-se de forma semelhante com suas camisas quadriculadas, botas, chapéus e calças jeans. Cenários imitam a clássica arquitetura da igreja, do fórum e da delegacia de pequenas cidades e encobrem os "stands" onde se vendem comidas típicas, artesanatos, licores e rendas típicas do São João.

Como parte indissociável desta dimensão cultural, tem-se a culinária que embora com especificidades regionais possuem traços comuns em todo o Brasil: canjicas, pamonhas, bolos de milho, amendoim, licores, bolos de aipim, quentão. Enfim, uma gastronomia poética (arroz doce, pé de moleque...) que remonta a infância do Brasil e do brasileiro. Nas cidades do Sul o pinhão e o quentão pouco presentes no Nordeste.

E não raro ao lado do grande palco, pequenos coretos onde trios de forró "pé de serra" mantem a pura tradição.

Em praticamente todo o Brasil as quadrilhas mantêm uma das mais caras tradições das festas com estrutura de teatro musical popular e suas coreografias e tramas obrigatórias como o casamento na roça, além dos movimentos como o túnel, a chuva, a cobra. No Nordeste essas quadrilhas cresceram e evoluíram em termos de figurinos e material cenográfico móvel. Figurinos que se assemelham aos das escolas de samba do Rio e de São Paulo, muito mais ricos, no entanto, que os famosos abadás do carnaval da Bahia. As quadrilhas são verdadeiras revistas musicais cheias de esplendor e tipicamente brasileiras. Um grande concurso de quadrilhas é promovido, no Nordeste, pela Rede Globo.

Música, danças, fogos, alimentos, indumentárias, fazem do São João a manifestação cultural genuinamente mais brasileira e mais democrática. Um sentido profundo de pertencimento a nossas raízes culturais une a ancestralidade rural e a modernidade urbana, num só Brasil.

Enfim o São João acompanhou o crescimento massivo da sociedade, mas manteve suas características originais. A sua transformação em produto turístico-cultural longe de descaracterizá-lo, pode contribuir para a sua preservação como bem cultural.

A Dimensão Econômica

Não existe uma pesquisa nacional sobre a dimensão econômica do São João. E esta, certamente, será uma das demandas do Seminário. Somente na Bahia, Paraíba e Pernambuco tem estudos sobre a movimentação turística e econômica juninas. Na Bahia um relatório sobre nove cidades, elaborado pela Superintendência de Estudos Econômicos, da Secretaria de Planejamento e pela Secretaria do Turismo da Bahia, dá conta de pesquisa realizada para o evento.

Sabe-se, contudo, que o São João, entendido mais uma vez aqui, como as festas juninas que abrangem quase todo o mês de junho, constitui-se numa atividade econômica muito maior que o Carnaval. E tem muito mais elos na sua cadeia produtiva:

- indústria e comércio de grandes empresas de bebidas, alimentos, vestuário, combustível, fogos de artifício;

- economia criativa, bandas de músicas, palcos, iluminação, som, publicidade, internet, produção cultural com figurinos e cenografias, audiovisual;

- serviços turísticos, hotéis, pousadas, transportes, agências de viagens (em percentuais bem mais altos que para outros eventos), transportes aéreos e terrestres, guiamento de turistas;

- entretenimento privado – festas particulares aos eventos públicos, chamados "festa de camisa", constituindo-se em grandes festas privadas com grande consumo de bebidas, alimentos típicos, fast food, utilização de bandas do moderno forró, venda de pacotes turísticos específicos, transporte estilo bate-volta de ônibus.

E, à falta de uma denominação já existente, posto que todas as outras (economia solidária, terceiro setor) revelaram-se conceitualmente insuficientes para a definição deste conjunto de atividades que vamos chamar de

- Produção popular envolvendo agricultura familiar (milho, aipim [mandioca], amendoim, coco, jenipapo, frutas diversas), agroindústria familiar (licores), confecções de fantasias (costureiras), comércio informal (fogos, ornamentos), artesanato (madeira, vime, tecido).

Tem-se como certo que o São João vende mais cerveja e outras bebidas industrializadas que no carnaval, pelo menos nos estados do Nordeste.

Vende mais jeans, tênis e botas que em qualquer época do ano.

E pelo menos na Bahia é o terceiro maior período de vendas para os shoppings-centers, perdendo apenas para o Natal e o Dia das Mães.

Nas pequenas cidades do interior de até 50.000 habitantes onde são realizadas as principais festas, elas representam de 20% a 30% do PIB de cada uma delas.

Em Caruaru, Pernambuco, a Prefeitura informou que a cidade recebeu 1,5 milhão de pessoas e teve movimentação de mais de 224 milhões.

Juntando todos os elos da cadeia produtiva do São João dos estados da Paraíba, Bahia, Pernambuco, Sergipe, Ceará (Mossoró), Maranhão (São Luís), podemos calcular em mais de 4 bilhões de reais a movimentação financeira dos festejos juninos do Nordeste.

A Dimensão Turística
 
O produto São João é, por enquanto, um fenômeno regional. O fluxo turístico em torno das festas no Nordeste dá-se majoritariamente dentro dos próprios estados. Entretanto o fluxo nacional de turistas brasileiros, principalmente para o Nordeste, nas festas juninas, já tem alguma significação e parece ser crescente. São Paulo, Minas, Rio e Brasília, são os principais emissores.

Para a Bahia, por exemplo, em 2011, a pesquisa realizada pela FIPE em 21 dos municípios juninos revelou que 23% do fluxo turístico para o Estado da Bahia no São João originou-se em outros estados. Cerca de 13% da Região Sudeste, sendo que 7% de São Paulo. Apenas 3,5% dos turistas vieram dos outros estados nordestinos. E 77,2% da própria Bahia.

Em maior ou menor proporção isso se repete nos demais estados nordestinos.

Por todo o litoral brasileiro, onde se encontram os maiores parques hoteleiros de lazer, o mês de junho é o pior para o turismo. O ápice da baixa estação. A ocupação hoteleira no mês de junho em Salvador, por exemplo, foi em média de 47% de 2002 a 2012.

Já a ocupação no mesmo período no Rio de Janeiro foi em média 56%.

Se compararmos o mês de junho com um mês também fraco como agosto, teremos no Rio uma ocupação de 64%. E na Bahia, Salvador de 66%.

Enquanto isso, ocorrem no interior nordestino do Brasil eventos festivos de grande proporção. Maior que o carnaval em todas as dimensões: econômica, turística, de cultura e de entretenimento.

Hotéis, pousadas, restaurantes, absolutamente lotados em cidades que até 30% das casas transformam-se também em meios de hospedagem. Festas públicas e privadas contratam milhares – milhares mesmo - de bandas, centenas de palcos são montadas com luz e iluminação das mais modernas. E por 10, 15 ou até 30 dias em algumas cidades, milhares de espetáculos musicais, animam as multidões. Tanto quanto no carnaval os índices de violência diminuem. Diferentemente do carnaval onde a predominância absoluta é de jovens, velhos adultos e crianças participam da festa.

A Embratur já incorporou a ideia de que o São João poderá ser um produto internacional e estabeleceu um programa em 2013 cujo objetivo era "agregar um produto importante ao imaginário internacional sobre o Brasil", segundo Flávio Dino, ex-presidente da Embratur, reconhecendo que junho "é um mês tradicionalmente de baixo fluxo turístico".

Embora muito importante, foi, contudo, uma iniciativa limitada a algumas cidades do Nordeste que tiveram suas festas promovidas internacionalmente. E o investimento no total para o edital que contemplou seis cidades foi de apenas 1,6 milhões. Os investimentos na internacionalização do São João ligado à Copa do Mundo, precisariam ser continuados e maximizados.

O Caso da Bahia

A Bahia do litoral, Salvador, Porto Seguro, Ilhéus Mata de São João, resolveu enfrentar esse fenômeno da baixa estação litorânea e disso resultou um "case" de sucesso.

Em 2009 iniciou-se na Bahia um processo de formatação dos festejos juninos como um produto turístico. Bahiatursa, Secretaria de Turismo, o trade turístico baiano e algumas operadoras nacionais juntaram-se num esforço de fazer uma grande festa em Salvador. Estimulou-se o trade de entretenimento, formatou-se pacotes, divulgou-se, motivaram-se os agentes de viagens. Um movimento em duas linhas paralelas: fortalecer o São João do Interior e usar a força cultural do interior para a capital e cidades litorâneas.

Seria politicamente inviável para o Governo da Bahia se limitar ao lançamento turístico do São João da Capital e algumas cidades do litoral.

Assim é que através de editais públicos Prefeituras do interior puderam habilitar-se para receber apoio financeiro, para o fortalecimento de suas festas. A contrapartida cultural era manter as características tradicionais do São João.

E na linha mais turística da festa, investiu-se num grande evento em Salvador com uma boa campanha publicitária de nível nacional, parcerias com empresas públicas e privadas, ações promocionais da Bahiatursa, lançamento do novo produto nos principais mercados emissores (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), folheteria, etc.

Resultado: a CVC, maior vendedora da Bahia, engajada no projeto, vendia em 2008 cerca de 12.000 pacotes no mês de junho. Em 2012 vendeu 39.000 pacotes. Nos anos seguintes a Nascimento Turismo, a Visual e a MGM entre outras, passaram a vender o São João da Bahia com grande sucesso.

Entre 2008 e 2012, Porto Seguro teve um aumento de 69% nos seus desembarques aéreos, no mês de junho. E a Bahia como um todo passou de 246.000 desembarques aéreos, também em junho de 2008, para 365.000 em 2012.

Esse crescimento pode não ter ocorrido exclusivamente em função do São João, mas os números da CVC e de outras operadoras confirmam a importância da operação. Obviamente quando se divulga um evento, é uma oportunidade para se divulgar o destino.

Um dado importante: diferentemente do São João do Interior, onde a grande maioria dos turistas regionais ficam em casas alugadas, 51% dos turistas que vieram a Salvador em junho de 2013, ficaram em hotéis, pousadas ou flats. E 23% usaram os serviços de agências de viagem.

E o investimento público neste produto que já foi incluído nos catálogos das principais operadoras brasileiras foi de aproximadamente 40 milhões em 5 anos.

Turismo e Preservação Cultural

O turismo pode desempenhar um papel muito importantes na preservação das tradições juninas, a mais brasileira das manifestações culturais.

A exemplo do que aconteceu com o tango na Argentina, com o flamenco na Espanha, com a salsa em Cuba e até o samba enredo das Escolas de Samba, o turismo pode contribuir para a preservação do São João e dos seus ritmos como o forró, o baião, de suas danças em formas de quadrilhas e do dançar "agarradinho" que são suas características. Sem o turismo os ritmos musicais e as manifestações culturais tendem a evoluir, muitas vezes perdendo completamente suas características originais.

Corresponde à lógica de atividade turística, a preservação da identidade cultural, das tradições e da autenticidade cultural dessas manifestações. Faz parte do negócio turístico essa preservação, pois os turistas se deslocam para viver experiências verdadeiras em atividades culturais que lhes remetam ao passado, ao presente e a até ao futuro. Mas sempre desejando viver e participar de coisas autênticas.

Segundo Taleb Rifai, Secretário-Geral da OMT, Organização Mundial do Turismo, em 2009, "o turismo partilha a Responsabilidade Social por promover os aspectos positivos da globalização e, como tal, deve orientar as suas redes mundiais para um desenvolvimento equilibrado e sustentável".

E sem nenhuma dúvida o contraponto positivo e integrador da globalização é a cultura local, parte, indissociável, portanto, de um desenvolvimento equilibrado e sustentável.

A diferença do Carnaval para os produtos culturais como o Tango e o Flamenco é que os 2 últimos não dependem da sazonalidade. O Carnaval não é replicável em qualquer época do ano, portanto tem dificuldades para se tornar um produto do turismo cultural todo o ano.

Assim, para o Brasil seria fundamental possuir um produto turístico-cultural para o inverno brasileiro.

O São João é, também, uma festa tão rica musicalmente quanto o Carnaval. E mais diversificada. Enquanto o Carnaval é marcado pelo samba, pelo frevo e pelo axé, o São João conta com o xote, o baião, a chula, o xaxado e as várias modalidades do forró.

Corre, porém, o risco de ver a sua música, a sua dança e a sua culinária, sacrificada pela acelerada evolução massificada da sociedade. E nesse sentido são bem-vindos olhares nacional e estrangeiro para preservar a parte mais antiga e mais autentica da identidade cultural brasileira.

Economia Criativa do São João

 Poucos eventos são tão intensivos na área da economia criativa quanto as festas juninas.

Além da forte conotação cultural em que se juntam as fontes artísticas populares com a produção musical moderna, há também toda uma mobilização de atividades correlatas como palco, som, luz, publicidade, gastronomia, figurinos e audiovisual incluindo aí as criações para internet.

 No plano simbólico registra-se no São João uma riqueza de significados que veio num crescendo desde as suas origens no Brasil do século XVII até os produtos musicais do chamado forró eletrônico.

O ritmo mais classicamente junino é o forró – incluindo-se – nele o baião, o coco, o xaxado, o samba coco, xote e suas variações – cujos patronos fundamentais foram Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês e Sua Gente, o Trio Nordestino, Dominguinhos, Genival Lacerda, Sivuca, Pedro Sertanejo, Zé Dantas e Humberto Teixeira. Além da releitura musical que Gilberto Gil aportou ao forró.

Incorporou-se também ao forró, o "sertanejo universitário" onde se destacam nomes dos compositores e cantores Michel Teló, Luan Santana e Gustavo Lima. Essa incorporação acentuou o caráter nacional – e não apenas nordestino – do São João.

Tudo isso do ponto de vista qualitativo. Quantitativamente as festas juninas se realizam durante todo o mês de junho e não raro se estendem para os meses de julho e agosto.

E embora no plano da representação simbólica formal guarde características originais rurais, sem dúvida nenhuma, os festejos juninos urbanizaram-se junto com a sociedade brasileira. E acontecem com grande força nos centros urbanos, nas cidades de médio porte e mesmo nas capitais, enquanto se mantém nas "roças" do interior do Brasil. Numa e noutra, expressões da rica economia criativa genuinamente brasileira na música, no teatro, na moda, na gastronomia.

Porque São Paulo

A realização do Seminário "São João: um novo produto do Turismo Cultural para unir o Brasil" na cidade de são Paulo justifica-se pela centralidade de São Paulo em relação à economia do turismo no Brasil.

 São Paulo é o maior emissor de turistas para todo o Brasil.

 São Paulo é também o maior receptor de turistas do país.

 Todas as grandes operadoras de turismo têm sede ou escritórios em São Paulo.

 Dos 89 milhões de desembarques aéreos nacionais São Paulo recebeu mais de 24 milhões. E dos 9.500.000 desembarques internacionais São Paulo recebeu 2.217.000.

 Somente a cidade de São Paulo recebeu 13 milhões de turistas. Sendo 85% de turistas brasileiros e 15% de turistas internacionais.

 Entre partidas e chegadas os três principais aeroportos de São Paulo (Guarulhos, Congonhas e Viracopos) movimentaram quase 64 milhões de passageiros, 670.000 decolagens e aterrisagens no ano de 2013.

 Além disso, São Paulo abriga a maior população nordestina fora dos estados do Nordeste. E também a maior população de gaúchos, paranaenses e catarinenses fora dos estados do Sul.

 Centros Culturais de tradição de todos os lugares do Brasil estão sediados em São Paulo.

 Assim, do ponto de vista do turismo e da cultura São Paulo não só é o lugar certo para sediar este Seminário sobre o São João do Brasil, como é de São Paulo que devem partir os movimentos culturais e turísticos para transformar a festa no produto de inverno turismo cultural do Brasil.

 Há também uma recente razão política para que São Paulo sedie este Seminário: as últimas eleições tiveram como consequência do seu apertadíssimo resultado, a falsa impressão de que havia uma divisão político-geográfica do Brasil. A vitória do Governador Alckmin no 1º Turno das eleições e, principalmente, a influência dessa vitória no resultado da corrida presidencial do 2º Turno, com a larga vitória de Aécio Neves do candidato do Governador Alckmin em São Paulo, suscitou em setores minoritários da classe média em São Paulo manifestações de ódio muito perigosas para a democracia brasileira. Esses setores, equivocadamente, atribuíram a vitória da Presidente Dilma ao Nordeste, quando na verdade ela teve mais votos no Sudeste, incluindo aí sua vitória em Minas Gerais.

 Necessário, portanto, o fortalecimento dos laços culturais, de uma cultura de paz como é o turismo, entre as várias regiões do país.

 Dessa forma a transformação do São João num produto do turismo cultural de inverno de todo o Brasil pode contribuir muito para aprofundar ainda mais os laços de fraternidade, de solidariedade e de união entre todos os brasileiros.

 Não há dúvida que a cultura é um elemento fundamental para a compreensão, a solidariedade e a tolerância. Entre as medidas para se buscar esses valores o Comitê da Cultura da Paz da UNESCO recomenda "apoiar as medidas em que se promovam a compreensão, a tolerância, a solidariedade e cooperação entre os povos, entre as nações e dentro delas".






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