Instituto Pensar - Campus Party planeja 10 mil laboratórios de tecnologia em comunidades de baixa renda

Campus Party planeja 10 mil laboratórios de tecnologia em comunidades de baixa renda

por Paula Soprana 05/02/2018

Em outra iniciativa de inclus√£o, produtor cultural leva 200 jovens da periferia para festival

S√ÉO PAULO - Vinicius Melo, de 15 anos, passou parte da inf√Ęncia e da adolesc√™ncia dentro de uma lan-house em Salvador, at√© 15 horas sentado na frente de um computador. Aos 9, quando descobriu a Campus Party, o maior festival de tecnologia e inova√ß√£o do pa√≠s, que acabou neste domingo em S√£o Paulo, passou a juntar dinheiro num cofrinho, mas nunca conseguiu viajar √† capital paulista. No ano passado, por√©m, houve uma edi√ß√£o do evento em sua cidade, e Vinicius foi √† reuni√£o da organiza√ß√£o, que costuma pr√©-consultar engajados em tecnologia da comunidade.

Francesco Farruggia, presidente do Instituto Campus Party, ouviu sobre os projetos de Vinícius, então com 14 anos — um deles ensinava crianças de rua a hackearem seus brinquedos. E o jovem ganhou, então, uma nova responsabilidade: ser embaixador de um laboratório na cidade de Canudos, município pobre no sertão baiano, com 18 mil habitantes, sem bancos e sem acesso à internet. A iniciativa é o projeto-piloto de educação e tecnologia da Campus Party, o Include, cuja ambição é implementar até 10 mil laboratórios em comunidades de baixa renda do país nos próximos quatro anos. Os monitores serão jovens da comunidade local e receberão remuneração.

Cinquenta projetos j√° est√£o em fase de idealiza√ß√£o ou de implementa√ß√£o. Os objetivos s√£o identificar "g√™nios escondidos", como diz Francesco, desviar jovens do tr√°fico para a tecnologia e permitir que possam desenvolver uma carreira na √°rea. Para o modelo vingar, √© necess√°rio unir tr√™s agentes: a comunidade, que precisa aceitar e ceder um espa√ßo ao laborat√≥rio, o poder p√ļblico, que auxilia com parte dos recursos (como o Minist√©rio de Ci√™ncias, Tecnologia e Inova√ß√£o, que dar√° computadores reciclados) e a iniciativa privada, que patrocina a estrutura.

Prestes a cursar automa√ß√£o industrial, Vinicius aceitou o desafio. Uma vez por semana, viaja sete horas em um transporte bancado pela Secretaria de Ci√™ncia, Tecnologia e Inova√ß√£o da Bahia e chega a Canudos, que fica a 376 quil√īmetros de Salvador. L√°, ele e outro monitor ensinam introdu√ß√£o √† l√≥gica de programa√ß√£o, eletr√īnica b√°sica, automa√ß√£o com ardu√≠no e o b√°sico do sistema GNU/Linux.

O jovem tem 66 alunos, todos de Canudos, filhos de lavradores, arrumadeiras ou mec√Ęnicos:

— A sensação é de que dou sentido à vida de outras pessoas, e à minha também — diz Vinicius.

O laborat√≥rio √© equipado com impressora 3D, rob√īs, drones e placa solar. A USE Telecom, empresa de telecomunica√ß√Ķes, forneceu o acesso √† internet. A Universidade Estadual da Bahia deu espa√ßo, √°gua, seguran√ßa e energia. A estrutura veio do Instituto Campus Party, mas a ideia √© que os pr√≥ximos centros contem com empresas e com seu "lixo eletr√īnico", que pode ser reciclado.

¬ó Se conseguimos fazer em Canudos, um lugar sem internet, fazemos em qualquer lugar do mundo ¬ó afirma Franscesco.

Segundo o Instituto Campus Party, outros cinco laboratórios devem ser inaugurados na Bahia neste semestre: em Salvador (duas unidades), Camaçari, Lauro de Freitas e Cachoeira. Até junho, Natal (RN), Brasília (DF), Pato Branco (PR) e municípios do norte de Minas Gerais também devem receber laboratórios.

ENTRADA GRATUITA

Em 2015, 7 mil alunos de escolas p√ļblicas da periferia de S√£o Paulo visitaram a √°rea gratuita da Campus Party. Em um levantamento da organiza√ß√£o, 83% responderam que gostaram da experi√™ncia, de ver os drones e rob√īs, mas chegaram √† conclus√£o de que "tecnologia n√£o √© para n√≥s". A √°rea gratuita oferece mentoria para empreendedores e atra√ß√Ķes ligadas a √°reas como rob√≥tica e realidade virtual. J√° o espa√ßo pago possibilita o acesso a palestras e a oficinas de tend√™ncias tecnol√≥gicas mais complexas, como blockchain, rede que opera o bitcoin, internet das coisas e neuroci√™ncia.

Muitos dos jovens que acampam no evento já cursam alguma faculdade de Ciências Exatas e têm no festival a chance de se conectar com profissionais experientes da sua área, além de recrutadores, líderes empresariais ou influenciadores digitais. Quem não pode desembolsar de R$ 150 a R$ 390, a depender do pacote, fica de fora dessa parte da programação, ligada ao mercado de trabalho.

Jhulyane Souza, de 25, sempre quis visitar o evento, mas o valor total é a metade de seu orçamento doméstico. Este ano, ela circula na área paga graças a uma iniciativa que levou a periferia para o centro. Thiago Vinicius, produtor cultural e criador da Agência Popular Solano Trindade, articulou a entrada de 200 pessoas de zonas periféricas de São Paulo na Campus Party. Moradora de São Mateus, bairro da zona leste da capital paulista, Jhulyane escreve sobre quadrinhos no site "re-verso" e tem, pela primeira vez, a chance de se conectar com outras pessoas da sua área.

¬ó √Č uma oportunidade √ļnica. O primeiro dia de evento ainda foi no dia do meu anivers√°rio ¬ó diz a jovem.

Para ir da sua casa ao festival, realizado no Complexo do Anhembi, na Zona Norte de S√£o Paulo, Jhulyane tem que pegar duas horas de transporte p√ļblico. Na sexta-feira, ela n√£o precisou voltar para S√£o Mateus ap√≥s acompanhar a programa√ß√£o. Ficou em uma das barracas do festival.

Para chegar aos 200 nomes que foram ao festival, Solano escolheu jovens com alguma ligação com tecnologia, empreendedorismo e criatividade, como finalistas de concursos escolares.

— Pela primeira vez, estamos entrando na Campus pela porta da frente, não só para sermos seguranças ou faxineiras, mas como espectadores do evento — diz Thiago.

Em sua d√©cima primeira edi√ß√£o, a Campus Party reuniu 130 mil pessoas ao longo da semana passada no espa√ßo gratuito do evento, o Open Campus. Al√©m dessas pessoas, oito mil acamparam e outros 4 mil pagaram para assistir a palestras e participar de workshops. Os organizadores do evento comemoraram o aumento da participa√ß√£o das mulheres no festival. Em 2015, 27% do p√ļblico era do sexo feminino. Neste ano, as mulheres foram 43%.
Fonte: O
Globo

Um passeio pelo que há de mais incrível na Campus Party Brasil 2017 - IGN Reportagens
Fonte: IGN Brasil




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