Instituto Pensar - Por uma nova economia brasileira criativa e sustent√°vel

Por uma nova economia brasileira criativa e sustent√°vel

por: Marco Antonio Ribas Cavalieri 


(Foto: Reprodução)

A desindustrializa√ß√£o brasileira chegou √† preocupa√ß√£o da grande imprensa. A pandemia do coronav√≠rus e todo o imbr√≥glio a respeito da compra das vacinas e, mais especificamente, do chamado IFA (ingrediente farmac√™utico ativo) acabou expondo o desastre que se abateu sobre a ind√ļstria brasileira nas √ļltimas d√©cadas. O Globo, Folha de S√£o Paulo e O Estado de S√£o Paulo destacaram, algumas semanas atr√°s, a triste queda da capacidade brasileira para atender seu pr√≥prio mercado farmac√™utico. Se na d√©cada de 1980 produz√≠amos 55% dos insumos necess√°rios ao consumo de f√°rmacos no pa√≠s, hoje, esse n√ļmero √© de irris√≥rios 5%.

As nossas dificuldades no setor industrial n√£o s√£o de hoje, mas s√£o resultado de um processo combinado de crises sucessivas, iniciadas na nossa primeira "d√©cada perdida?, a de 1980, e agravado pela abertura comercial irrefletida dos anos 1990 e a aus√™ncia de projeto nacional de desenvolvimento nas d√©cadas que se seguiram. E isso n√£o foi sem aviso. Avessos √† ideia de que restri√ß√£o fiscal, combate √† infla√ß√£o, algo que era absolutamente necess√°rio, e liberaliza√ß√£o comercial pura e simples automaticamente levariam o Brasil ao desenvolvimento, economistas heterodoxos v√™m notando a enrascada em que nos metemos desde a d√©cada de 1990. Na d√©cada seguinte, de 2000, alguns economistas come√ßaram a falar sob o r√≥tulo de novo-desenvolvimentistas, analisando profundamente as causas que nos levariam ao fracasso de hoje e apontando solu√ß√Ķes.

De um ponto de vista mais geral e menos t√©cnico, pode-se dizer que a solu√ß√£o √© ter projeto nacional. N√£o tivemos projeto de desenvolvimento. Tivemos sim, durante alguns anos em que a esquerda esteve no poder, um projeto social, o qual comprou a briga pela redu√ß√£o da desigualdade e pela redu√ß√£o da pobreza. Mas esse projeto n√£o foi combinado com esfor√ßo de desenvolvimento econ√īmico, de gera√ß√£o de tecnologia, de investimentos bem direcionados em ci√™ncia e melhoria estrutural da economia brasileira. De certa maneira, durante a execu√ß√£o do important√≠ssimo projeto social, o pa√≠s parece ter continuado na trilha de que a economia acaba se desenvolvendo por si mesmo. Continuamos sem plano e, portanto, mesmo com um governo de esquerda, nos fiamos nas cren√ßas liberais sobre desenvolvimento.

Hoje, na minha opini√£o, estamos sem op√ß√£o. O resultado da aus√™ncia de projeto de desenvolvimento nacional est√° a√≠, nas sucessivas d√©cadas perdidas e escancarado pela nossa incapacidade de produzir uma solu√ß√£o para a pandemia do coronav√≠rus. Note que tr√™s das vacinas v√™m exatamente de pa√≠ses do BRICS, a √ćndia, a China e a R√ļssia. Mas o Brasil n√£o conseguiu chegar l√°. Em face a esse cen√°rio, n√£o temos op√ß√£o. A √ļnica op√ß√£o √© tomar de volta o tim√£o em nossas m√£os e enxergar de uma vez por todas que o pensamento m√°gico de que a economia se desenvolve apenas com um governo fiscalmente respons√°vel e a liberaliza√ß√£o da economia n√£o funciona.

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Compreendendo isso, a necessidade de que o desenvolvimento vem com projeto, temos uma √ļnica op√ß√£o vi√°vel. Essa op√ß√£o √© investir na mudan√ßa estrutural de nossa economia. Temos que parar de caminhar a passos largos para sermos apenas exportadores e produtores de bens prim√°rios, como √©ramos h√° cerca de 100 anos atr√°s. Precisamos voltar a ter um projeto de ind√ļstria nacional e investir na produ√ß√£o de bens que os economistas chamam de bens complexos. Os bens complexos s√£o aqueles que n√£o s√£o facilmente produzidos ao redor do mundo e que poucos pa√≠ses t√™m a capacidade de produzir. Segundo estudos que j√° s√£o publicados h√° algum tempo por pesquisadores como o professor de Harvard, Ricardo Hausmann, h√° √≠ntima rela√ß√£o entre o desenvolvimento e as economias que produzem esse tipo de bem. O Brasil, apesar das adversidades, tem ind√ļstrias de sucesso nesse tipo de bem complexo, como na produ√ß√£o dos avi√Ķes da Embraer e da empresa catarinense de equipamentos el√©tricos WEG. Esse √© o caminho da reindustrializa√ß√£o brasileira. Isso √© o que fez a China nas √ļltimas d√©cadas, ao contr√°rio do Brasil.

Agora, essa industrializa√ß√£o n√£o pode mais ser a industrializa√ß√£o levada a cabo no pa√≠s no s√©culo XX. A vari√°vel ambiental se imp√Ķe, nesse momento hist√≥rico, como algo que n√£o √© poss√≠vel deixar de lado. Dentro da necessidade de se mudar a estrutura da economia brasileira, √© preciso que o projeto seja um projeto ambientalmente sustent√°vel e respons√°vel. Ainda mais levando em considera√ß√£o que o Brasil √© o pa√≠s que det√©m uma das maiores riquezas naturais do planeta, a Amaz√īnia. A Comiss√£o Econ√īmica para a Am√©rica Latina e o Caribe (a Cepal), a mesma institui√ß√£o que l√° nos anos 1950 deu in√≠cio ao desenvolvimentismo do s√©culo XX vem defendendo uma ideia muito importante e que combina a sustentabilidade a necessidade de mudan√ßa estrutural na economia brasileira.

A ideia √© a do Big Push ambiental, um projeto que atualiza para as necessidades ambientais do s√©culo XXI o pensamento de importantes economistas desenvolvimentistas do s√©culo anterior. A ideia tem o nome de "big push? porque um projeto de desenvolvimento com grandes impactos n√£o pode ser gradual, baseado em pequenos investimentos em algumas √°reas da economia. Como afirmava o grande estudioso do desenvolvimento, o economista Paul Rosenstein-Rodan, para uma mudan√ßa estrutural da economia √© preciso um impulso de grandes investimentos articulados entre iniciativa privada, poder p√ļblico, agentes estrangeiros e organiza√ß√Ķes internacionais. A analogia que pode ser usada √© a da decolagem de um avi√£o: ele somente decola depois de atingida uma velocidade m√≠nima.

Contudo, se grandes investimentos s√£o necess√°rios, as restri√ß√Ķes ambientais imp√Ķem escolhas diferentes daquelas feitas no s√©culo XX. Os investimento precisam ser em atividades com baixo impacto ambiental, que aproveitem a riqueza natural brasileira de forma sustent√°vel. Tecnologias de energia renov√°vel e eficiente, economia circular, pr√°ticas de integra√ß√£o do setor produtivo com o ambiente natural t√≠pico do nosso pa√≠s, elimina√ß√£o do descarte de res√≠duos e reutiliza√ß√£o s√£o alguns dos caminhos a trilhar com os investimentos de um big push. Ali√°s, estudos j√° v√™m demonstrando que uma economia com estrutura mais complexa, que produza bens mais complexas tem menor impacto ambiental. Estudo recente do professor de economia da UFMG Jo√£o Prates Romero, em conjunto com a economista da Cepal, Camila Gramkow, mostra algo exatamente nesse sentido. Economias mais complexas s√£o relativamente menos poluentes, calculados pelo valor que agregam aos produtos.

E, a partir disso, chegamos na chamada economia criativa. A economia criativa √© o setor da economia que engloba as atividades cujo insumo principal √© a cria√ß√£o advinda da intelig√™ncia humana. S√£o setores com o das artes, do design, da pesquisa e da ci√™ncia, do patrim√īnio material e imaterial, do audiovisual, da publicidade e do marketing e das tecnologias de informa√ß√£o e comunica√ß√Ķes. O investimento em setores da economia criativa cria empregos de maior qualidade, com maior capital humano incorporado, que produzem produtos de maior valor agregado. Para qualquer complexifica√ß√£o da estrutura da economia e, em especial para uma altera√ß√£o na dire√ß√£o de tecnologias sustent√°veis, a economia criativa, com ci√™ncia e tecnologia, tecnologia da informa√ß√£o se torna uma vari√°vel essencial. Como diz uma das especialistas no assunto, a respeito do desenvolvimento local, por exemplo, a economista Gina Paladino: "As cidades mais competitivas do mundo est√£o cada vez mais dominadas por inova√ß√Ķes que substituem recursos naturais n√£o renov√°veis pelos talentos do ser humano como insumo b√°sico das suas economias.?

√Č levando em considera√ß√£o essas modernas ideias, da complexidade da estrutura produtiva, da necessidade do desenvolvimento sustent√°vel atrav√©s de um big push e da √™nfase na economia criativa como vetor de uma nova economia brasileira que fiquei muito bem impressionado ao ler o livro tr√™s da Autorreforma do PSB. Depois de d√©cadas de desconstru√ß√£o da economia nacional, apesar de termos que reconhecer avan√ßos na √°rea social e das institui√ß√Ķes, √© preciso colocar para a sociedade brasileira um projeto de na√ß√£o, um horizonte, um lugar no qual queremos chegar. O PSB certamente est√° fazendo isso afinado com o que h√° de melhor e mais sensato sendo produzido a respeito do desenvolvimento econ√īmico brasileiro. Fa√ßamos votos para que esse projeto se concretize em futuro pr√≥ximo.

*Marco Antonio Ribas Cavalieri √© doutor em economia pelo Cedeplar/UFMG e p√≥s-doutor pela Universidade de Chicago. Professor do Programa de P√≥s Gradua√ß√£o em Desenvolvimento Econ√īmico e Pr√≥ Reitor de Administra√ß√£o da UFPR.



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