Instituto Pensar - A nova revolução industrial

A nova revolução industrial

Quase metade dos empregos nos Estados Unidos, segundo a Universidade de Oxford, poder√£o ser automatizados em duas d√©cadas.

 

Por Fernando Aguirre*

 

            Entre os s√©culos XVIII e XIX, a Europa foi o cen√°rio de diversas mudan√ßas, iniciadas na Inglaterra, que culminaram na substitui√ß√£o do trabalho artesanal pela produ√ß√£o em s√©rie, por meio de m√°quinas. De maneira bem resumida, essa foi a primeira revolu√ß√£o industrial que o mundo observou, um divisor de √°guas para todas as rela√ß√Ķes humanas a partir de ent√£o. Hoje, mais de 350 anos ap√≥s esse movimento, estamos atravessando mais uma fase de revolu√ß√£o que vai impactar profundamente a sociedade, gerando mudan√ßas na forma com que fazemos neg√≥cios, nos relacionamentos pessoais e profissionais e at√© nos estudos, cursos superiores e profiss√Ķes.

            Todas essas mudan√ßas surgem a partir de tr√™s letras: RPA, sigla que significa Robotics Process Automation e diz respeito √† automa√ß√£o de processos de neg√≥cios. A fun√ß√£o dela √© transformar rotinas, que hoje s√£o feitas por pessoas, em processos automatizados com software, os tais "rob√īs". H√° tr√™s classes ou n√≠veis de RPA: o primeiro √© respons√°vel por tratar as informa√ß√Ķes transacionais e repetitivas; o segundo utiliza dados n√£o estruturados e interpreta√ß√£o de texto; por fim, o terceiro inclui intelig√™ncia artificial e aprendizado da m√°quina, simulando a intelig√™ncia humana. N√£o existe limita√ß√£o t√©cnica para automa√ß√£o. Pode ser um call center, um servi√ßo ou an√°lise jur√≠dica ou um registro cont√°bil. Os graus de complexidade variam bastante, mas n√£o h√° limita√ß√£o de solu√ß√£o no n√≠vel global.

           O uso da rob√≥tica e de tecnologias cognitivas est√° definido para permitir a digitaliza√ß√£o progressiva das atividades que requerem algum grau de julgamento. O desenvolvimento dessas tecnologias tem sido impulsionado por avan√ßos significativos na intelig√™ncia da m√°quina, no engajamento digital, na an√°lise de dados, nas redes sociais, tecnologias m√≥veis e utiliza√ß√£o da nuvem.

O assunto RPA teve in√≠cio h√° alguns anos, por√©m apenas recentemente vem ganhando espa√ßo nas organiza√ß√Ķes, com grande avan√ßo nos EUA, em opera√ß√Ķes de Centros de Servi√ßos Compartilhados. O Brasil √© avan√ßado em determinados aspectos e influenciado, principalmente, pela complexidade tribut√°ria e as exig√™ncias de reporte de informa√ß√Ķes ao fisco.  Atualmente, j√° existem empresas com todo o ciclo de valida√ß√£o da recep√ß√£o de mercadorias, tanto em termos dos atributos da nota fiscal em rela√ß√£o ao pedido de compra e regras fiscais, quanto em gera√ß√£o de contas a pagar, envio de dados √†s secretarias de fazenda, livros fiscais e, at√© mesmo, contabiliza√ß√£o funcionando sem nenhuma interfer√™ncia humana.

            Diante desse cen√°rio, a universidade de Oxford estima que 47% dos empregos nos Estados Unidos poderiam ser automatizados dentro das pr√≥ximas duas d√©cadas. Outras pesquisas apontam que um ter√ßo das profiss√Ķes deixar√° de existir at√© 2025, enquanto o restante ser√° profundamente transformado em fun√ß√£o da automa√ß√£o de processos. Isto j√° aconteceu em grande escala dentro de f√°bricas, o que nos mostra que estamos diante de uma nova revolu√ß√£o industrial.

Por outro lado, estima-se que dever√£o surgir novas categorias de fun√ß√Ķes, oferecendo atividades para um n√ļmero entre 120 e 140 milh√Ķes de trabalhadores at√© meados de 2020. Desse modo, ser√£o criadas carreiras com maior grau de exig√™ncia, de forma geral, sobre os indiv√≠duos. A tend√™ncia √© que as empresas busquem profissionais bem preparados para an√°lise, tomada de decis√Ķes e constru√ß√£o de bons relacionamentos, visto que rob√īs n√£o se relacionam e n√£o constroem la√ßos. Novas habilidades ser√£o a chave para ambos, os empregados e os empregadores.

Para as empresas, as grandes quest√Ķes que surgem com a nova revolu√ß√£o industrial s√£o; "Por onde come√ßo? Como n√£o ficar atr√°s dos meus concorrentes?". As respostas para essas quest√Ķes n√£o s√£o simples, mas √© importante que os executivos considerem a cultura da organiza√ß√£o e fa√ßam um projeto-piloto dentro dos objetivos e do tamanho adequado para a empresa. Outro item importante √© identificar alvos iniciais para projetos de automa√ß√£o e escolher as tecnologias certas, al√©m de avaliar os benef√≠cios e prioriz√°-los.

O que observamos é que, independente do ramo de atuação, os empresários devem manter um olho na evolução da automação robótica e considerar como trazer a nova tecnologia para a organização. Entretanto, o nível de investimento não é trivial nesse momento e, antes de uma empresa sair adquirindo software de automação, deve estudar com profundidade a aplicação prática e benefícios para o seu próprio negócio, visto que a adoção exigirá alta qualidade dos processos empresariais.

Os rob√īs n√£o s√£o algo para ser admirado enquanto espera-se o movimento amadurecer. Em vez disso, √© fundamental come√ßar com alguns pequenos pilotos e ser parte atuante na nova remodelagem dos processos organizacionais, das transa√ß√Ķes empresariais, modelos de trabalho e profiss√Ķes do futuro.

 

*Fernando Aguirre é sócio-líder da KPMG no Brasil para a prática de Services, Outsourcing & Automation Advisory

 



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