Instituto Pensar - John Howkins: economia criativa precisa de pessoas malucas

John Howkins: economia criativa precisa de pessoas malucas

S√£o Paulo - O que fazemos em nossas vidas, e o modo como fazemos, define o ambiente cultural nas cidades, pa√≠ses e - at√© - continentes. John Howkins, consultor brit√Ęnico e autor do livro The Creative Economy - publicado em 2001 e ainda n√£o lan√ßado no Brasil -, define este contexto de florescimento de ideias como ecologia criativa. J√° a economia criativa √© a √°rea que engloba os neg√≥cios que derivam deste contexto, especialmente os relacionados a entretenimento e arte.

A economia criativa est√° muito ligada a novas necessidades, segundo o especialista. "Nossos desejos pessoais est√£o mudando, assim como nosso sentimento de realiza√ß√£o, de colabora√ß√£o e a forma como nos relacionamos. Como resultado dessa transforma√ß√£o, a economia tamb√©m est√° mudando. Seu foco passa de produtos para servi√ßos, de commodities para experi√™ncias e de pre√ßos fixos para descontos e, at√©, para o gratuito", explicou John Howkins, considerado o "guru" da economia criativa, durante o IV Semin√°rio Internacional de Design do Sal√£o Inspiramais, realizado em S√£o Paulo, na √ļltima semana de julho para profissionais ligados √† ind√ļstria de componentes para os segmentos de vestu√°rio, cal√ßados e acess√≥rios.

O especialista ressaltou três princípios básicos, imprescindíveis quando se quer ter novas ideias - e fazer negócios a partir delas:

1. Todo mundo nasce com imagina√ß√£o e criatividade; elas n√£o s√£o caracter√≠sticas especiais 
2. Criatividade requer liberdade para pensar, se expressar, explorar, descobrir, questionar etc e 
3. Liberdade precisa ter acesso ao mercado.

Howkins ainda comentou que estudar √© um elemento chave para o surgimento de novas ideias. Trata-se de um processo aut√īnomo, volunt√°rio e cont√≠nuo, diferente da educa√ß√£o. "O estudo √© mais importante e est√° crescendo mais do que a educa√ß√£o, que √© compuls√≥rio e tem limite de idade. Quando voc√™ para de estudar, voc√™ morre. Costumo proliferar a seguinte f√≥rmula: criatividade = a estudo + adapta√ß√£o das ideias".

Depois de sua palestra, John Howkins deu entrevista exclusiva para o Planeta Sustent√°vel. Quer√≠amos que ele comentasse a rela√ß√£o entre economia criativa e sustentabilidade - social, cultural e econ√īmica. John destacou, ent√£o, o que chama de ecologia criativa que, ao contr√°rio do que voc√™ pode pensar n√£o tem nada a ver com meio ambiente, bichos e florestas. Ele tamb√©m explicou por que o Brasil vai mal nesse tipo de economia, quando comparado com outros pa√≠ses: em ranking do economista norte-americano Richard Florida, para seu livro Harper Business, entre 45 na√ß√Ķes, nosso pa√≠s est√° em pen√ļltimo lugar. E o consultor aproveitou para fazer uma provoca√ß√£o: "N√£o sei se os brasileiros s√£o malucos o suficiente para isso". Eis a entrevista, a seguir.

Fale mais sobre ecologia criativa

John Howkins: Ecologia criativa √© o contexto social no qual as pessoas t√™m ideias. Ela √© semelhante √† ecologia, que √© o relacionamento entre organismos. Mas em vez de nos atermos a como os organismos se envolvem e crescem, focamos em como as ideias circulam na sociedade. √Č um sistema, como a economia, em que s√£o feitos neg√≥cios. E precisamos incentiv√°-la, simplesmente, porque precisamos de novas ideias.

Como a ecologia criativa est√° relacionada com a sustentabilidade?

John Howkins: Do ponto de vista ambiental, não há uma relação direta. Ecologia é uma palavra engraçada, mas remete simplesmente a um sistema. E alguns sistemas são sustentáveis, outros não. Simplesmente porque "sistema" não significa "sustentabilidade".

O Brasil está numa posição ruim no ranking de Richard Florida sobre economia criativa. Por outro lado, temos uma cultura bem rica e diversa. Onde está o problema e onde estão as oportunidades?

John Howkins: Vocês têm um grande senso de estilo, ótima energia e paixão. Mas no Brasil, hoje, a agricultura e o sistema de manufaturas é que são fortes e as lideranças não querem mudar esse panorama. Como a economia brasileira está indo bem, no momento, é difícil dizer que é preciso mudar. Mas, na verdade, eu também não estou dizendo isso. O que quero dizer é que as pessoas, em particular os jovens, deveriam ter mais liberdade para desenvolver suas ideias. Eles deveriam ter mais prazer com suas ideais.

Como o mercado deve se comportar em relação aos novos empreendedores?

John Howkins: Quero enfatizar a liberdade, √† qual dou muita import√Ęncia. A criatividade floresce quando as pessoas est√£o felizes e se voc√™ as sufoca ou n√£o respeita suas ideias, a criatividade fica em baixa. Por isso digo que as pessoas devem ter liberdade. O que vai acontecer depois cabe aos indiv√≠duos. O Brasil pode ter m√ļsicos maravilhosos, como aconteceu com o movimento Tropic√°lia. Havia boa m√ļsica, boa pintura, bom teatro e o governo reprimiu. √Č muito dif√≠cil prever, mas isso poderia acontecer de novo. A gente nunca sabe at√© onde os artistas v√£o, onde eles v√£o tocar. Ent√£o temos que ter certeza de que, se forem longe, n√£o ser√£o reprimidos.

O que faz com que pa√≠ses como Finl√Ęndia e Jap√£o estejam entre os primeiros em economia criativa?

John Howkins: √Č uma combina√ß√£o de educa√ß√£o de alto n√≠vel, liberdade e pessoas que est√£o n√£o s√≥ pensando, como colocando a criatividade em pr√°tica. √Č dif√≠cil ser criativo, por isso voc√™ precisa de pessoas que sejam estranhas e malucas. E voc√™ tamb√©m precisa de uma plateia interessada nas suas ideias. N√£o sei se os brasileiros s√£o malucos o suficiente.

Podemos dizer que a economia criativa constrói lugares melhores para se viver?

John Howkins: Acho que se voc√™ respeitar as ideias das pessoas e o que elas querem fazer dentro da economia, voc√™ as ouve e as conhece melhor. Voc√™ d√° √†s pessoas espa√ßo para seguir suas pr√≥prias ideias. E acho que isso conduz a uma sociedade mais igualit√°ria. Se voc√™ respeita a ideia que as pessoas t√™m, se deixa elas seguirem seus sonhos e paix√Ķes, sem par√°-las, sem censur√°-las, acredito que isso conduzir√° a uma sociedade mais feliz e satisfeita.



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