Instituto Pensar - TURISMO E CIDADE

TURISMO E CIDADE

Uma contribuição ao debate sobre um Plano Estratégico de Turismo em Salvador. Domingos Leonelli para o programa de governo de Walter Pinheiro candidato a prefeito de Salvador.

Mais do que para pa√≠ses, regi√Ķes ou para estados, as pessoas viajam para cidades. Alguns v√£o a trabalho ou a neg√≥cios, mas sempre para locais espec√≠ficos. Outros viajam para sonhos e sensa√ß√Ķes que atendem pelos nomes de Salvador, Bahia, Paris, Roma, Len√ß√≥is, Cap√£o, Porto Seguro, Rio de Janeiro, S√£o Paulo. H√°, na verdade, uma forte disputa por viajantes, ou passageiros que o pessoal do ramo chama simplesmente de "pax" entre as cidades do mundo, do Brasil e da Bahia. Uma operadora como a CVC, por exemplo, leva mais turistas para Porto Seguro que para Salvador. O Complexo de Sau√≠pe, no munic√≠pio de Mata de S√£o Jo√£o tamb√©m disputa com Salvador turistas nacionais e internacionais. Recife tem investido dezenas de milh√Ķes de reais na sua promo√ß√£o.

S√£o 900 milh√Ķes de viagens que movimentam o mundo, segundo a OMT ¬Ė Organiza√ß√£o Mundial do Turismo. E cada turista significa renda, riqueza e emprego nas cidades que o recebe. O Turismo j√° se constitui, hoje, num dos setores mais importantes da economia mundial e √© vital para algumas cidades e regi√Ķes. Alguns lugares "vivem s√≥ disso". Mas isso n√£o √© bom. O ideal √© uma economia diversificada que receba turistas de lazer e de neg√≥cios, que produza o que os turistas consomem que tenha vida cultural pr√≥pria.

Entretanto, sendo t√£o importante, o turismo consta das plataformas propositivas dos candidatos a prefeito da Capital e do Interior apenas como um item a mais, com ligeiras ilustra√ß√Ķes de um exemplo ou outro do que far√£o sobre o tema. Ali√°s o turismo est√°, desgra√ßadamente, entre as unanimidades ret√≥ricas do mundo moderno. Tal como a ecologia, todo mundo √© a favor. Mas, em geral, o discurso pol√≠tico-eleitoral, trata o tema "en passant". Parece n√£o reconhecer o real significado econ√īmico dessa atividade.

A ditadura do marketing na pol√≠tica piorou a situa√ß√£o: as pesquisas ditam o tem√°rio de cada candidato. E como sa√ļde, educa√ß√£o, emprego, seguran√ßa e tr√Ęnsito nas cidades maiores, s√£o, obviamente, os problemas apontados nas pesquisas, vemos uma repeti√ß√£o enfadonha de propostas mais ou menos iguais sobre cada um desses temas. Claro que se esses problemas forem resolvidos, isso √© √≥timo para o turismo.
Ah sim... as pesquisas apontam tamb√©m que as pessoas se sentem abandonadas pelos poderes p√ļblicos. E a√≠ todos repetem que v√£o "cuidar das pessoas".

Começando Pelo Centro

Em Salvador, capital da Bahia, que vou tomar como refer√™ncia para esta reflex√£o, a primeira proposta concreta que ouvi sobre o Pelourinho ¬Ė s√≠tio cultural fundamental para o turismo ¬Ė foi a de Walter Pinheiro do PT, PSB, PC do B e PV, afirmando que implantar√° uma unidade do programa Cidade M√£e no Centro Hist√≥rico. Bingo! Realmente um dos principais problemas na √°rea s√£o as crian√ßas que ao inv√©s de estarem acolhidas, acompanhadas e sendo educadas, est√£o nas ruas como vendedores improvisados ou, pedintes, no limiar da marginalidade. Presas f√°ceis do tr√°fico e da prostitui√ß√£o. Inspiram compaix√£o e irrita√ß√£o com elas e conosco mesmo por vivermos num pa√≠s e numa cidade que comporta essa realidade. Mas n√£o s√£o s√≥ crian√ßas. H√° tamb√©m os "arranjadores" de vagas que escoltam quem chega, os vendedores de colares, os mendigos nas cal√ßadas.

Al√©m do Cidade M√£e vai ser necess√°rio uma a√ß√£o conjunta do Governo do Estado e da Prefeitura com SEDES, SESP, SESAB, SSP, trabalhando e agindo conjuntamente. Agindo e planejando. Planejando e agindo junto com os artistas, os empres√°rios, os moradores, os interessados no Pel√ī, os consultores da UNESCO, todos enfim. Talvez valesse a pena tamb√©m, chamar a "prata da casa", antrop√≥logos, arquitetos, pensadores que conhecem cidades e a cidade da Bahia. Mas se no Pelourinho, o Governo do Estado √© fundamental, a cidade tem que se assumir como respons√°vel por si mesma, inclusive no Pelourinho. A gest√£o do Centro Hist√≥rico precisa dos apoios federal e estadual, mas tamb√©m da legitimidade municipal.

N√£o se pode dizer que o Prefeito Jo√£o Henrique nada fez pelo turismo ¬Ė a pintura do Forte S√£o Marcelo e sua recupera√ß√£o interior, bem como, a autoriza√ß√£o para os excelentes √īnibus tur√≠sticos do Salvador Bus, a a√ß√£o inicial com motoristas de taxi no dom√≠nio do ingl√™s, e a recupera√ß√£o do Plano Inclinado do Pilar s√£o alguns exemplos. Registre-se, tamb√©m, o SIMM, qualificando m√£o de obra, tamb√©m para o turismo. Entretanto, frente ao que n√£o foi feito, ... um angustiante abismo. A situa√ß√£o de calamidade das praias, a completa aus√™ncia de fiscaliza√ß√£o e regulamenta√ß√£o do com√©rcio ambulante, de disciplinamento de barracas comerciais no Abaet√©, em Itapu√£, na Colina do Bonfim, na pra√ßa Cayru, a capitula√ß√£o do PDDU √† burrice imobili√°ria na orla atl√Ęntica, a ina√ß√£o no Parque Atl√Ęntico e Aeroclube, a omiss√£o da Emtursa em rela√ß√£o ao turismo nacional e internacional.

Tomemos como exemplo, a leni√™ncia com a informalidade: pode ser considerada uma bondade social? Creio que n√£o. Longe de resolver o problema dos desempregados e miser√°veis que fazem proliferar barracas feias, anti-higi√™nicas e anti-freguesia, essa leni√™ncia com a informalidade acomoda a pobreza em espa√ßos, a completa omiss√£o em rela√ß√£o a vendedores e ambulantes irregulares de rua que assediam as pessoas, e poderiam gerar riqueza e empregos. Uma coisa √© um pequeno comerciante, ou um artes√£o que vende, inclusive nas ruas, as pe√ßas da sua produ√ß√£o. Esses podem e deveriam fazer parte da economia do turismo e da cidade. Outra coisa s√£o os "avi√Ķes" dos maus comerciantes que se utilizam de vendedores sem carteira assinada e sem nenhum amparo social para vender mercadorias sem impostos e/ou contrabandeadas. "Escravizam" m√£o de obra e sonegam impostos √† sociedade.

Assim √© que o primeiro passo do programa municipal de turismo √© organizar a cidade, focar a gest√£o no verdadeiro combate √†s causas da pobreza e √† desordem urbana. A revitaliza√ß√£o do com√©rcio deve definir "espa√ßos-√Ęncoras" a partir da Pra√ßa Cayru e imedia√ß√Ķes da Concei√ß√£o da Praia, aproveitando projetos existentes. Preocupar-se mais com projetos indutores do desenvolvimento do que com compra e venda de edif√≠cios comerciais como acontece hoje. Tudo indica, portanto, a imperiosa necessidade de se formular um Plano Estrat√©gico para o Turismo de Salvador.

Pensar o Turismo é Pensar a Cidade

Claro que toda e qualquer melhoria da cidade, nas chamadas zonas turísticas ou não, é boa para o turismo. Aliás tudo que é bom para o povo é bom para o turismo. Mas isso não dispensa uma estratégia, um projeto para o turismo, de preferência assumido como compromisso com o eleitorado. Um projeto legitimado nas urnas. Vejam como foi importante o Governador Jaques Wagner ter assumido, quando candidato, o compromisso com a interiorização do turismo. Seu governo já começa a apresentar alguns resultados nessa área.

No caso de Salvador os compromissos precisam come√ßar com a reformula√ß√£o do PDDU para n√£o permitir que a orla mar√≠tima seja imobilizada com grandes pr√©dios exclusivamente residenciais, a meu ver uma cegueira empresarial. A orla mar√≠tima deveria ser priorizada para hot√©is, restaurantes, casas de entretenimento, ocean√°rios, equipamentos tur√≠sticos que gerem renda e empregos todo o ano e aumentem os gastos e a perman√™ncia dos turistas na cidade. Um m√≠nimo de intelig√™ncia no capitalismo tupiniquim. E pensar o turismo √© pensar a cidade, valorizando os seus s√≠tios culturais, econ√īmicos e sociais a partir de suas voca√ß√Ķes mais "naturais". Disciplinar a implanta√ß√£o de shoppings centers nas √°reas centrais da cidade, por exemplo.  

Os shoppings nas √°reas centrais, junto com o hist√≥rico desastre urban√≠stico da implanta√ß√£o do Centro Administrativo, esvaziaram o Centro Antigo, na medida em que retiraram dali os principais centros de poder e de com√©rcio. E amea√ßam paralisar o tr√Ęnsito na regi√£o da atual rodovi√°ria de Salvador. Para estimular as atividades tur√≠sticas e hoteleiras no Centro Hist√≥rico √© preciso, entre muitas outras coisas, punir severamente a especula√ß√£o imobili√°ria da qual o antigo Palace Hotel √© exemplo gritante: um hotel que funcionava normalmente com salas para pequenos eventos e um bel√≠ssimo restaurante, foi comprado e fechado por um empres√°rio portugu√™s que aposta na valoriza√ß√£o imobili√°ria. O que era um espa√ßo de vida, neg√≥cios, empregos e renda hoje √© uma propriedade imobili√°ria. Im√≥vel. Economicamente morta. 
O novo prefeito deveria dar um prazo aos propriet√°rios e em nome da recupera√ß√£o econ√īmica do Centro Hist√≥rico tomar duras medidas contra essas absurdas absolutiza√ß√Ķes e exacerba√ß√Ķes do direito √† propriedade que desconhecem at√© a Constitui√ß√£o. O mesmo deveria ser feito com o cinema Jandaia, o cine Pax e outros. Ou funcionam como atividades culturais ou comerciais privadas ou passam a ser utilizados pelo setor p√ļblico para atividades que revitalizem a √°rea.

Zonas Turísticas e Culturais

√Āreas, bairros e at√© ruas de Salvador poderiam ser inclu√≠das num zoneamento tur√≠stico e cultural a partir de sua import√Ęncia hist√≥rica, e de seu potencial econ√īmico e de lazer, serem objetos de uma normatiza√ß√£o legal espec√≠fica. N√£o se trata s√≥ de criar restri√ß√Ķes, mas ao contr√°rio, de facilitar investimentos que v√£o gerar empregos e criar renda. Esse zoneamento tur√≠stico cultural n√£o deve se limitar ao Centro Hist√≥rico tradicional mas se estender ao Curuzu, ao Bonfim, √† Ribeira, √† Itapu√£, √† Barra, ao Sub√ļrbio. Restri√ß√Ķes de uso combinadas com est√≠mulos fiscais para atividades tur√≠sticas e culturais que viabilizar√£o econ√īmica e socialmente essas √°reas. Se no Curuz√ļ, por exemplo, fossem reduzidos ou eliminados impostos municipais por um certo per√≠odo e isso fosse combinado com um programa de qualifica√ß√£o de m√£o de obra e capacita√ß√£o empresarial, o Corredor Cultural do Curuz√ļ floresceria muito mais rapidamente. O contorno da orla inteira do Sub√ļrbio Ferrovi√°rio, a partir do Restaurante "Boca de Galinha" seria outra √°rea. S√£o apenas exemplos.

Pacto Institucional pelo Desenvolvimento e Contra o Desemprego
A Prefeitura de Salvador pode e deve contribuir para um grande pacto envolvendo os Governos Federal e Estadual, a Justi√ßa, o Legislativo, o Minist√©rio P√ļblico e a iniciativa privada, para enfrentarem juntos problemas que afetam uma cidade com mais de 300.000 desempregados. Desemprego e mis√©ria se explodirem em viol√™ncia e desordem podem, realmente, amea√ßar o futuro de Salvador, em todos os planos, inclusive como destino tur√≠stico do Brasil. Leis, jurisprud√™ncia e posi√ß√Ķes do Minist√©rio P√ļblico, precisam se modificar e convergir para o desenvolvimento econ√īmico. N√£o √© justo por exemplo, com nosso povo, que institui√ß√Ķes, algumas respeitabil√≠ssimas institui√ß√Ķes, mantenham pr√©dios fechados e em ru√≠nas em √°reas estrat√©gicas para o desenvolvimento urbano e tur√≠stico. Ou que a Orla de Salvador fique no estado em que se encontra. Ou ainda que o Sub√ļrbio, Roma, Ribeira tenham quil√īmetros de armaz√©ns e pr√©dios fechados h√° 20 ou 30 anos √† espera de valoriza√ß√£o.

Esse pacto inter institucional partiria do princípio de que tudo que é bom para o povo é bom para o turismo. Mas isso não deve nos eximir da responsabilidade de eleger prioridades. E se o turismo for considerado estratégico para Salvador, talvez seja bom lembrar algumas dessas prioridades.

Prioridades Econ√īmicas do Turismo

A primeira √© a atualiza√ß√£o e a efetiva aplica√ß√£o da Estrat√©gia Econ√īmica de Salvador elaborada em 2005 com a participa√ß√£o de mais de 1.000 pessoas. Dessa Estrat√©gia constam a defini√ß√£o de Salvador como cidade de servi√ßos superiores ¬Ė inform√°tica, log√≠stica, consultoria empresarial ¬Ė capazes de atrair investimentos nessas √°reas e em outras correlatas. Est√° escrito tamb√©m na estrat√©gia, o fortalecimento da economia da cultura que em quase todos os seus itens √© o que se chama tamb√©m de Produ√ß√£o Associada ao Turismo: cinema, teatro, dan√ßa, artes pl√°sticas, artesanato, m√ļsica, edi√ß√Ķes, publicidade, inform√°tica aplicada √† comunica√ß√£o.

A segunda √© uma pol√≠tica de atra√ß√£o de investimentos que n√£o se limite a hotelaria, mas a todos os elos que comp√Ķem a cadeia produtiva do turismo que, ali√°s, geram a maioria dos empregos no setor. Hot√©is, por exemplo, consomem sabonetes, perfumes, shampoos que embalados em pequenos inv√≥lucros e chamados de "amenities" poderiam perfeitamente ser fabricados aqui pela nascente ind√ļstria de cosm√©ticos que √© n√£o poluente e altamente empregadora. Artesanato para decora√ß√£o, m√≥veis, toalhas, len√ß√≥is, velas, tudo isso com ind√ļstrias perfeitamente implant√°veis em Salvador e na Regi√£o Metropolitana. T√°xis especiais, bir√īs de informa√ß√Ķes, guiamento em ingl√™s e espanhol, s√£o exemplos de servi√ßos, que se regulamentados pelo poder p√ļblico municipal, ampliam a qualidade e proporcionam a cria√ß√£o de mercado de trabalho.

Em terceiro lugar est√° a implanta√ß√£o de uma de pol√≠tica de atra√ß√£o e de uma estrutura de apoio a investimentos em hotelaria, entretenimento e lazer. Al√©m do esfor√ßo, digamos f√≠sico, de estar presente, com material e gente qualificada em feiras e semin√°rios de investidores, como o Governo do Estado faz, h√° muitos anos, √© preciso dotar a cidade uma legisla√ß√£o e um planejamento urbano que torne Salvador mais competitiva em rela√ß√£o a outras cidades. Zoneamento econ√īmico e tur√≠stico da cidade que estabele√ßa nas √°reas, est√≠mulos fiscais e tribut√°rios, normas que e facilitem o licenciamento urbano para a implanta√ß√£o de hot√©is, casas de espet√°culo e entretenimento, museus particulares, centros culturais, transportes, estacionamentos privados, marinas, portos, arenas multiuso privadas. 

Nos próximos 4 anos, Salvador deveria dar prioridade a hotéis executivos de 3 ou 4 estrelas (segundo o padrão internacional), além de "home-stays" nas áreas próximas de centros culturais e religiosos de identidade afro-brasileira, albergues para o turismo estudantil e cultural. E nessa mesma linha, Salvador precisa ter uma estrutura própria, da cidade, de atração de eventos apoiando o atual Convention Bureaux para ampliar ainda mais o turismo de negócios e de eventos, ambos mais lucrativos para a cidade do que o também desejável turismo de lazer.

Infraestrutura e Promoção

A infraestrutura e a promo√ß√£o tur√≠stica andam juntas. E o turismo pode ajudar a organizar o espa√ßo econ√īmico da cidade. As √°reas pr√≥ximas ao nosso aeroporto internacional ¬Ė especialmente a estrada Cia-Aeroporto ¬Ė deveriam ser pensadas, por exemplo, como uma nova fronteira do turismo de neg√≥cios, de eventos, de esportes e de lazer especializado, como golfe, por exemplo. H√° um trecho da Cia Aeroporto em que a Prefeitura ainda √© propriet√°ria de milh√Ķes de metros quadrados e que foram objeto de invas√Ķes de "colarinho branco". Necess√°rio recuperar essas √°reas, doa a quem doer.

Necess√°rio tamb√©m, elencar as prioridades da prefeitura nos pr√≥ximos 10 anos para estruturas rodovi√°rias, aquavi√°rias, ferrovi√°rias e aerovi√°rias (helic√≥pteros e v√īos de curtos percursos) para facilitar a mobilidade e os acessos com n√≠tida vincula√ß√£o com as zonas de maior interesse tur√≠stico. Isso vai exigir a defini√ß√£o das prioridades espaciais dessas estruturas. E esses espa√ßos ser√£o as prioridades dos pr√≥ximos 10 anos, podendo, excepcionalmente e s√≥ excepcionalmente, serem alteradas pela evid√™ncia de uma ou outra √°rea que venha a ganhar significado tur√≠stico. Al√©m de obras e de estruturas f√≠sicas ¬Ė cais de atra√ß√£o para o turismo n√°utico, heliporto, √°reas de estacionamento especiais para √īnibus tur√≠sticos, acessos, esta√ß√Ķes tur√≠sticas ¬Ė h√° tamb√©m que se estabelecer est√≠mulos e restri√ß√Ķes que possam contribuir para a economia do turismo. Se se pro√≠be, por exemplo, a subida de √īnibus na Colina do Bonfim, induz-se o turista a saltar na Baixa do Bonfim, subir pela √°rea lateral onde estar√£o pequenos estabelecimentos de artes√£os, apresenta√ß√Ķes de folclore, bebidas e comidas t√≠picas. Pequenas decis√Ķes que fazem um grande efeito.
  
A Ind√ļstria dos Souvenirs da F√© e da Cultura

A diversidade religiosa deve ser vista como uma vantagem competitiva e n√£o como √°rea de inaceit√°veis conflitos. Templos da religi√£o cat√≥lica, do candombl√©, das v√°rias denomina√ß√Ķes evang√©licas, do budismo, do espiritualismo, do juda√≠smo, j√° se constituem em importantes pontos de atra√ß√£o para visitantes que devem ver e vir a nossa cidade como uma capital brasileira da f√© e da alegria. E aqui novamente uma pol√≠tica que estabele√ßa normas e est√≠mulos ao interc√Ęmbio de turistas atra√≠dos pelas religi√Ķes. Sinaliza√ß√£o informativa nas ruas pr√≥ximas dos centros religiosos, facilidades para que implantem estruturas de alojamento e hospedagem, est√≠mulo √† produ√ß√£o de lembran√ßas e pe√ßas de artesanato.

Aos nossos museus devem ser acrescidas atividades fabris na produção de "souvenirs" culturais que não apenas sustentem as famílias como os próprios museus. Incentivos fiscais tanto da Prefeitura como do Estado deveriam ser pensadas para estes importantes empreendimentos culturais.


Plano Estratégico do Turismo e Capital Humano

Um plano que contemple interven√ß√Ķes estruturais, mudan√ßas de legisla√ß√£o e normatiza√ß√£o, √°reas f√≠sicas priorit√°rias e a√ß√Ķes voltadas ao capital humano. E neste item uma primeira constata√ß√£o: a hospitalidade meiga e afetiva de nosso povo √© um dos principais ativos do turismo baiano. Mas o sorriso mais bonito do mundo precisa ser acrescido de cultura t√©cnica, conhecimento e qualidade tur√≠stica. Nesse sentido duas grandes linhas de a√ß√£o, uma de car√°ter geral e outra mais espec√≠fica.

A primeira √© a generaliza√ß√£o da cultura de hospitalidade e de identidade cultural e hist√≥rica em toda a cidade e para toda a popula√ß√£o. Isso poderia ser feito com a introdu√ß√£o da mat√©ria Identidade e Hospitalidade na grade curricular das escolas municipais, a partir, digamos do 3o ano do ensino fundamental. A ideia de que habitamos uma "cidade do mundo" que precisa ser conhecida na sua hist√≥ria e caracter√≠sticas pelos seus pr√≥prios habitantes, elevar√° a autoestima de nossas crian√ßas e futuros cidad√£os. O entendimento que hospitalidade nada tem a ver com submiss√£o ou subservi√™ncia e sim com altiva delicadeza civilizada, eleg√Ęncia, picardia e charme, constitui-se em s√≥lida base cultural para qualquer profiss√£o ou atividade. Na era da internet essa base de informa√ß√£o hist√≥rica e de hospitalidade √©, tamb√©m, um facilitador para o soteropolitano, como cidad√£o cibern√©tico do mundo, seja qual for a sua atividade.

A outra linha de a√ß√£o voltada para o capital humano √© um forte investimento na qualifica√ß√£o profissional que contemple a melhoria dos servi√ßos que est√£o em funcionamento e, portanto, profissionais j√° empregados ou candidatos a atividades tur√≠sticas. Em ambos um fort√≠ssimo refor√ßo na preliminar prepara√ß√£o b√°sica relativa a postura, dom√≠nio da l√≠ngua portuguesa, informa√ß√£o b√°sica da cidade, dom√≠nio das opera√ß√Ķes matem√°ticas e seus atuais instrumentos informatizados. E a partir de prioridade do mercado real de trabalho, definir os cursos de qualifica√ß√£o profissional com cargas hor√°rias superiores a 200 horas.

Nessa perspectiva de capacitação para dinamizar a economia da cidade, é preciso estabelecer metas que sirvam como forte apelo do marketing da cidade. Por exemplo: Salvador passa a ter 1.000 motoristas de taxi que falam inglês e conhecem os roteiros culturais da cidade. Ou ainda: Salvador com 2.000 garçons que falam espanhol e conhecem receitas dos principais pratos da culinária baiana. Valoriza-se, ao mesmo tempo, o trabalhador e o destino turístico, tornando-o mais competitivo.

Finalmente o Plano Estrat√©gico do Turismo de Salvador contemplaria as estrat√©gias de desenvolvimento do turismo √©tnico, do turismo ecol√≥gico, do turismo cultural, do turismo n√°utico, do turismo religioso e do turismo de esportes. A estrat√©gia de marketing da cidade definindo as linhas de a√ß√£o junto aos principais mercados emissores, ao receptivo e √† preserva√ß√£o e qualifica√ß√£o do patrim√īnio hist√≥rico da cidade, devem ser formuladas em conjunto com o Governo do Estado.

Turismo, Cidade e Seguran√ßa P√ļblica

Turismo e cidade enquanto centro de cultura, de com√©rcio, de servi√ßos, s√£o exatamente a mesma coisa. Tem as mesmas necessidades de acesso, de mobilidade e de seguran√ßa. E nessa quest√£o um ponto de clara controv√©rsia: devem as zonas tur√≠sticas receber tratamento especial na √°rea de seguran√ßa p√ļblica? Isso n√£o √© um privil√©gio? Isso n√£o significaria desfavorecer a maioria de cidad√£os local para favorecer os visitantes? Sim e n√£o. E mais, o elemento de d√ļvida que envolve a seguran√ßa, atinge tamb√©m todos os servi√ßos p√ļblicos: saneamento, pavimenta√ß√£o, limpeza etc.

 A quest√£o pol√≠tica a ser resolvida, s√≥ tem resposta satisfat√≥ria na medida em que os espa√ßos tur√≠sticos da cidade pertencem a todos os habitantes da cidade. Um "tratamento" especial de seguran√ßa e outros servi√ßos nas √°reas tur√≠sticas, n√£o beneficiam apenas os turistas, mas todos os cidad√£os que trabalham ou se movimentam nessas √°reas. E geram riqueza, renda e empregos que beneficiam toda a economia da cidade e, portanto, toda a sua popula√ß√£o. O Pelourinho tem e, deveria ter ainda mais, policiais e c√Ęmeras de TV e equipamentos, do que o bairro de Brotas, por exemplo. Isso √© necess√°rio se levarmos em conta que as zonas e atividades tur√≠sticas significam gera√ß√£o de emprego, de receita e de riqueza para toda a cidade. Inclusive para os moradores de Brotas. Para os trabalhadores que moram nos bairros menos atendidos. Mas que ao inv√©s de serem trabalhadores, seriam desempregados se o turismo n√£o estiver ativado.

Claro que isso n√£o √© op√ß√£o f√°cil, nem indolor. Pode continuar sendo feita apenas na pr√°tica e sem declara√ß√£o p√ļblica, como at√© ent√£o. Ou vir a ser definida transparentemente no plano de prioridades estrat√©gicas e legitimada pela decis√£o pol√≠tica da maioria da popula√ß√£o nas elei√ß√Ķes e nos debates da C√Ęmara Municipal. Dessa √ļltima forma, poder√° ser objeto de regulamenta√ß√£o e de contrapartidas, inclusive do setor privado que pode ser chamado a contribuir com taxa√ß√Ķes legais para um policiamento tur√≠stico municipal refor√ßado em determinada √°reas. Ou da cobran√ßa de uma taxa municipal para os turistas como √© feito em outras cidades do mundo.

Esta é uma modesta contribuição parcial, e, com certeza, cheia de lacunas de um aprendiz de sua própria cidade, do turismo e da vida urbana.

Domingos Leonelli
Setembro de 2008



0 Coment√°rio:


Nome: Em:
Mensagem: